Psicanálise e psicologia 1 : Marcuse e Maslow
eliane colchete
I
)
1
Há duas proposições de Herbert Marcuse em Eros e Civilização,
lançado em 1955, (Rio de Janeiro, Livro Técnico, 2009, ), que
poderiam sintetizar uma interpretação global da obra de Freud:
a) “Os processos que criam o ego e o superego também modelam e perpetuam instituições e relações sociais específicas.”
b) “... qualquer decréscimo autêntico nos controles sociais exercidos sobre os instintos sexuais inverteria, mesmo sob condições ótimas, a organização da sexualidade, fazendo-a regressar a estágios pré-civilizados.
b) “... qualquer decréscimo autêntico nos controles sociais exercidos sobre os instintos sexuais inverteria, mesmo sob condições ótimas, a organização da sexualidade, fazendo-a regressar a estágios pré-civilizados.
2
As duas proposições (p. 174, 5) são basilares à concepção
pós-freudiana de Marcuse, elaborada com base na repressão como
conceito freudiano basilar aos processos em questão. A repressão
dos instintos foram canalizados não apenas para a socialização
útil, mas por um meio de sobre-repressão que explicaria a extração
de sobre-trabalho conhecida pela formulação de Marx (mais-valia).
3
Na hipótese da atualidade como era automatizada, que superou o ônus
do trabalho braçal, Marcuse considera que uma transformação do
regime da libido deve ser pensada em termos das consequências da
liberação esperável, se já não se necessita da canalização. A
seu ver, porém, a transformação teria que se orientar por uma
perspectiva consequente do processo. Como está, a civilização do
lazer apenas perpetua o ônus da canalização da sobre-repressão
como domínio de um mundo de mercadorias fúteis, que existem apenas
como meio do autoritarismo transmitido por padrões impostos de
consumo, com o efeito dessas mercadorias cercearem a liberdade do
corpo.
4
Assim uma sociedade verdadeiramente liberada é a hipótese de um
progresso que depende de já ter havido o resultado evolutivo da
repressão, que é a ciência e a autoconsciência, mas em si mesma,
a hipótese conduz aquilo que em termos freudianos seria a regressão
a estágios pré-civilizados, em que a repressão dos instintos era
pouca ou desconhecida. Uma ordem liberada “só é possível se os
instintos sexuais puderem, em virtude de sua própria dinâmica e sob
condições existenciais e sociais mudadas, gerar relações eróticas
duradouras entre os indivíduos maduros.”
5
Isso requereria que aos instintos sexuais fosse permitido traçar
sua própria trajetória, a partir do patamar civilizado já obtido.
Sobretudo, repetindo, a liberação dos instintos sexuais só é
possível a partir da desobrigação das formas arcaicas do trabalho
sem vocação, meramente imposto pela força da organização social
sobre-repressiva. Ao ver de Marcuse, a repressão primária dos
instintos não tem necessariamente a consequência da
sobre-repressão. É somente a sobre-repressão que seria pois
antagonista da liberação, até porque a repressão primária já
aconteceu se formas civilizadas e científicas de existência
lograram vencer as tendências destrutivas. Marcuse considera porém,
quanto a estas, que não são verdadeiramente básicas à psique, ao
contrário do que supôs Freus. Somente Eros, as pulsões
construtivas, são naturais ao homem.
6
A princípio considero as proposições sintéticas de Marcuse sobre
o freudismo da perspectiva apenas da psicanálise, de modo a avaliar
o que elas informam. A primeira explica a origem das instituições
sociais pelos processos egológicos e super-egológicos, isto é, do
aparelho psíquico subjetivo. A segunda condiciona o progresso da
ciência e das instituições políticas ao modo de ser desses
processos enquanto lugar de acontecimentos definidos como
originários, como a repressão primária. Assim devemos considerar a monogamia
obrigatória, mesmo sendo possível divórcio, na decorrência de um segundo casamento sempre só se podendo casar com um cônjuge e do sexo oposto. A monogamia sobreveio como um dos acontecimentos históricos,
para Freud significando a superação da dúvida neurótica sobre a
identidade do pai. Se fosse suspensa no código civil civilizado, haveria regressão a formas brutais e pré-científicas de vida
social. Antes de examinar a hipótese de Marcuse sobre uma era atual
em que a consequência não seria necessariamente assim, em si mesmo
o enunciado freudiano equivale a um círculo. A repressão dos
instintos originários do aparelho psíquico criou o desenvolvimento
de capacidades sociais civilizadas que se definem, elas porém (como
a monogamia obrigatória) enquanto civilizadas, pela repressão dos
instintos originários.
7
Esse círculo é reencontrável na fenomenologia de Husserl. Não
creio, pois, inversamente a alguns, que a teoria de Husserl a
propósito do mundo da vida histórico-social, portanto próprio a
uma situação histórica e diverso dos demais, é a denegação
frontal da sua teoria anterior a propósito da intencionalidade como
natureza dos atos de sentido que implicam atribuição de
significado. Pois fora de um mundo histórico-social, não existiria
a possibilidade de um sujeio que não sabe que significado atribuir a
algo ou a certa situação, como a algo situao sobre que ele pode
falar na acepção de empregar um termo. Não houve passagem ao
relativismo. Mas dentro de um mundo histórico-social, que nunca haja
esse não saber essencial que destruiria a intencionalidade como
natureza dos atos de sentido, como da consciência, é coerente, pois
os significados já estariam preestabelecidos e ser sujeito é
progressivamente aprendê-los e empregá-los. O aprendizado não é
essencial, mas contingente, e a intencionalidade essencial é
preenchida na condição aplicativa. Assim compreendem-se várias
obras afins ao embasamento fenomenológico, a exemplo de Benjamin e
Musil, que falavam respectivamente do indivíduo desorientado e do
homem sem qualidades, como hipótese quimérica de uma civilização
puramente subjetivada, o contrário da condição comunitária em que
os significados são preestabelecidos numa tradição cultural.
8
O círculo é nítido, porém. Posto que para aceitar que os
significados sejam tais, como a cultura predispõe, eles devem ser
coerentes com a expectativa da consciência subjetiva, individual,
mas a consciência subjetiva só terá expectativa de coerência
conforme os significados predispostos como tais. Não ignoramos que
esse problema foi tratado por Heidegger à base de assunção do
círculo enquanto a cultura em si, pragmaticamente determinante. Numa
mundaneidade prática como aquela em que ela vive, a consciência é
a expectativa da coerência “na” e “da” cultura. Assim ela
não pode transcender a expectiva da cultura por qualquer outra que
por hipótese pertenceria a si mesma, os seus julgamentos a propósito
da hipótese mesma já estariam culturalizados na autoposição da
consciência “para-si”, que não está à parte da diferença que
reside entre variados mundos da vida sócio-históricos.
9
Examinando as proposição de Freud, assim como esclarecidas em
Marcuse, creio que o nexo crucial dessa orientação básica, que une
metodologias diferenes, mas a partir de uma premissa comum circular,
se localiza nas noções de modelagem e perpetuação, que subordinam
“relações sociais específicas” aos “processos que criam o
ego e o superego”, conforme os termos marcusianos”. (p. 174) Os
processos literalmente criam o ego e o superego, mas “também
modelam e perpetuam relações sociais específicas”. Já vimos que
os processos estão relacionados à repressão e o nexo circular da
premissa. Porém o que seria primeiro preciso questionar é o
reducionismo embutido nessa concepção freudiana, de que a
sociologia e a história seriam epifenômenos da psique individual,
porque esta mesma é transindividual, onto-filo-genética quanto aos
determinantes básicos.
10
E aparentemente, nada mais lógico que nós só pudéssemos conceber
sociedades e acontecimentos humanos em termos de referenciais
constituídos por significados em relação a que os sujeitos humanos
fossem aqueles a quem tanto se pudesse considerar terem atribuído
como poderem inteligir. Até mesmo sendo dos significados os
criadores. Porém isso seria demasiado simplista, ou mais do que
apenas simplista, falacioso. A expressão “sujeitos humanbos”
estaria sendo utilizada de um modo ambíguo. Tanto podendo significar
um sujeito, caso em que não se demonstrou descartável as suas
diferenças dos demais, ou um grupo de sujeitos que tem, ao
contrário, uma ou mais características em comum.
11
Na sociologia e na história, as situações não são idealizáveis
ocmo um grupo de sujeitos originários de um lote de significados
relativos a ações comuns, a menos que se queira errar muito, não
obstante por páginas e páginas de belas ficções construídas. O
que se constata quando se lida com a informação objetiva,
inversamente, é a irredutibilidade das situações sociais ao
horizonte de um sujeito típico, ideal projetado do grupo. As
situações são relações de vários sujeitos cujas diferenças as
animam de modo que cada situação se configura como é, desde o
conflilto à colaboração ou mero engajamento como numa ação
social que requer participação em posições relaciais à exemplo
de empregados e empregadores, marido e mulher, etc. O ajuste do
significado subjetivo à interação é ademais variável, porque o
papel prescrito não cobre evidentemente a gama de possibilidades da
açãoe fetivo, e se houver dúvida quanto ao outro lado, haverá
tembém quanto ao comportamento próprio adequado. Na situação de
conflito isso é até inerente. Não saber o que o outro fará no
contexto da situação, faz parte do conflito. Nas demais situações,
a margem variável é precisamente o que as separa ou aproxima de um
estado conflitivo na relação.
12
Um modo de notar o extemos reducionismo freudiano é também a
premissa de que uma repressão foi necessária, do contrário não
haveria um comportamento dessexualizado do corpo, aquele tipo de
comportamento socialmente útil. Lacan levou a premissa ao extremo ao
julgar que a classificação aristotélica das proposições, com o
Universal definido na lingaugem, é função evolutiva do machismo.
Se houvesse matriarcado – que não apenas uma patologia (“pai
fraco”) - não haveria Universal na consciência, porque a
feminilidade não é universalizada. Só “O Homem” é universal.
Mas aqui o caráter circular do argumento freudiano faz com que a
subordinação seja da psique à sociedade, pois não se atribui à
psique mesma interesses de desempenho que não fossem de prazer
sexual, de natureza sexual. Se a repressão trouxe outros
constitutivos históricos indesejáveis, relacionados ao que a
política confronta na condição da distopia, Marcuse sugere por
exemplo que a alternativa de regressão, que Freud antepõe à
subversão do reprimido instintivo, poderia ser ultrapassada por uma
transformação alternativa, mas assim continuaria a ser verdade que
o resultado se trauduziria em “erotização da personalidade
total”. Mesmo que assim a transformação elidisse a canalização
perversa do desreprimido instintivo, pelo fato de não haver um ponto
de desrepressão mas sim a totalidade do não reprimido, o que
ocorreria ao ver de Marcuse seria transformação dos próprios
“estágios” pré-desenvolvidos, ante-monogâmicos, que definem-se
em Freud como “perversão” (2). Mas não há correlação
assinalável entre formas de casamento não-cristãs ocidentais, e
perversões – além da tautologia classificatória. O sadismo, como
o que poderíamos designar a barbárie indesejável, não está
obviamente definido como prática prescrita dessas formas ou ao menos
de muitas delas. (3)
13
O que considerei reducionismo do psíquico pelo social foi, por
outro lado, que o levantamento do preconceito relativo ao
não-ocidental implicaria a sexualização total do comportamento.
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Mas não se pode considerar que formas de casamento não -ocidentais
o implicam. E se apenas se quiser definir unilateralmente a monogamia
obrigatória como o que não é perverso, o que se fez foi declinar
da necessidade de justiricar além de preconceito etnocêntrico, que
não poderia demonstrar em que representa a salvaguarda efetiva
contra a possibilidade do relacionamento monogâmico ser
eventualmente ele mesmo sádico ou pervertido – na acepção de
fazer inclusão de práticas de frustração da personalidade,
machismo, anulação da pessoa, etc. A isso, de que valeria responder
que são justamente perversões, na abrangência da dicotomia do
reprimido monogâmico e desreprimido diverso? Não haveria um meio
de provar que a monogamia obrigatória mesma, enquanto repressiva,
não é sádica – assim como o interdito freudiano à masturbação,
mesmo sendo o representante do sexo como necessidade endopsíquica,
enquanto vários médicos a prescreviam - a menos que mão se
descartasse a suposta como tal razão objetiva dessexualizada como o
destilado dessa mesma repressão.
15
É importante observar que não pretendo objetar ser a poligamia
melhor ou conveniente a algum desejo originário, pelo contrário, a
meu ver seria do mesmo modo sádico impor o poligâmico a quem tem
realmente uma opção monogâmica, mas sim examinar as consequências
da posição freudiana, que ela, considera a poligamia originária.
Ela reproduz como determinismo das opções, o que na antropologia
foram determinismos sócio-culturais e legais, destacando-os do
contexto histórico, que poderia mudar ou ser mais matizado na
prática do que na letra. Assim também a revolução dos costumes
que tem tido lugar desde o século passado na sociedade
industrializada, vem sendo tratada como um fenômeno de evolução
classificatória, restrita ao Ocidente como horizonte da
modernização, em vez de um devir possível.
16
Se não há meio de provar que a monogamia repressiva não é ela
mesmo sácida, a menos que não houvesse o pressuposto de que ela é
determinante da razão evolutiva, mesmo assim mais uma vez apenas
haveria um argumento falho. Pois o que resta de problemático na
sociedade ocidental imperialista, não se reduz a algo de somenos
relativamente às demais sociedades conhecidas. E como não se
demonstrou além da simples contiguidade, o vínculo necessário
entre monogamia e ciência objetiva, apenas se o pressupôs na
hipótese acalentada, não há garantia de que o problemático sempre
mais avassalador nãos e relacione à monogamia enquanto forma
impingida, ao invés de livremente escolhida entre demais possíveis.
A monogamia se relaciona a imposição de grupos de poder. Não há
garantia de que ela seja um a priori da “mente”, inscrito na
consciência de todo “ocidental”. A garantia de que não se
dispõe é entretanto, o vínculo que supostamente ampara o
diagnóstico do ocidental não monogâmico pervertido. Na atualidade
aos grupos de poder, ligados como estão ao business de mídia, vem
interessando ultrapassar a era monogâmica que prescrevia fidelidade
à mulher mais velha, sem qualquer prejuízo para a estabilidade do
capitalismo, bem inversamente. Mas isso, não obstante o quanto vem
sendo instigado como novo comportamento de prestígio machista, não
é designado “poligamia”, naturalmente.
17
Pode-se argumentar que nas demais sociedades, uma possibilidade
autêntica de escolha estaria muito mais fora de cogitação. Porém
isso não é a priori demonstrável. O que importa á natureza do
argumento é apenas que ele não equaicona a distopia ocidental como
dado histórico e sociológico, ali mesmo onde pretende estar
definindo o Ocidente histórico-social.
18
É interessante que Freud tenha também duas fases teóricas, com a
segunda semelhando contrastar-se radicalmente à inicial, mas podendo
ser que se pense em alguma continuidade essencial. Se Marcuse
considera a possibilidade de uma civilização pós-ocidental que
dependeria da precedência do Ocidente, e ele a onsidera como da
erotização plena do homem, Freud também consagra a segunda fase da
teoria ao domínio pleno de Eros como o único referente da força
viva construtiva. Marcuse supõe que se deva efetivar a unicidade a
um plano sem contraste com a força oposta, da inércia. Mas o que
desejo enfatizar é que a erotização é o conceito ativo na segunda
fase, quando na primeira era a duplicidade de ego e eros que
satisfazia a explicação da atividade. O eros era, ao contrário, a
força perigosa, a paixão dissipativa que se dirige a outrem
independente dos interesses do sujeito, enquanto o ego era o escudo
protetor, o meio das forças autoconservativas como as pulsões que
interessam à manutenção do organismo. Assim a clássica oposição
freudiana entre o amor (libido/instintos eróticos) e a fome (entre
as demais pulsões autoconservativas). Na segunda fase, o ego,
superego e id, aparentemente continuam a ser articulação de forças
e lugares psíquicos decisivos da personalidade. Mas a reordenação
relaciona-se à tipologia dos instintos.
19
A circularidade da interpretação no pensamento heideggeriano também
parece corresponder a uma plenitude a assumir-se na superação do
dualismo. Mas o caráter indemonstrado de todo círculo é ao mesmo
tempo a demonstração das classes opostas de Dasein
sócio-históricos, enquanto passíveis o não, de Saber, e de saber
livre ou não da metafísica como “ocidente” da razão objetiva,
avessa à polissemia do Ser. (4)
20
Ao conceito de sublimação psicanalítico, parece convergir todo
caráter aporético da superação do etnocentrismo, mesmo na
erotização-culturalização plenas. Pois se o instinto sublimado
nada parece com seu conteúdo desreprimido, não seria pela
dessublimação que o erotismo se realizaria com ganho da
inteligência ou até da higiene pública, enquanto que, quanto à
inteligência, continuaria sendo o proveito histórico do sujeio da
evolução, o Ocidente, se a sublimação tem correlatos que
extrapolam o mero ganho da cultura.
II
)
1
Na inteligência, a cultura é o dado variável, que mede porém as
distâncias no caminho evolutivo até a plenitude. Na cultura estão
hábitos e atitudes, significados de moralidade e estimativas do
dever-ser. Na inteligência estão as capacidades inerentes à
obtenção do saber objetivo e produção das estratégias coerentes
ao saber, que levariam ao sucesso da espécie, da sociedade ou da
pessoa. Assim definiu-se o modo da economia objetiva como aquela que
se limita à performance da inteligência, não observada em qualquer
outro situamento sócio-histórico além do Ocidente contemporâneo.
2
Porém a definição das práticas da economia objetiva é uma tarefa
difícil, havendo profusão da controvérsia teórica a propósito de
quais são os determinantes. Nessas teorias jogam-se polêmicas que
atingem os níveis metodológico (científico) e metódico
(filosófico), uma vez que a definição da inteligibilidade em si
deve estar dada para que se desenvolva coerentemente a argumentação
sobre o objeto suposto inteligido. Ou seja, a concepção sobre o que
é o mundo e como podemos saber que assim é. Uma das teorias mais
proeminentes sobre a economia objetiva é a de Marx (5) , e ela
começa justamente esclarecendo acerda da objetividade, que Marx
designou dialética (6). Ao contrário de simples identidades
ideáveis, os objetos que podemos compreender como referenciais de
afirmação e negação estão numa cadeia contínua de relações
recíprocas que obedecem contudo a uma razão assinalável como
sucessão ordenada. Algo que é afirmado será logo depois negado por
um outro, mas dessa tensão, que é criativa, emerge uma síntese que
a ambos os termos opostos compreende como partes de um mesmo todo que
se desenvolveu necessariamente como ocorreu. Uma teoria alternativa à
de Marx, porém que vem sendo aquela que pode ombrear a importância
do materialismo histórico, é a de Weber, e nesta não há vestígio
algum da inteligibilidade dialética dos contrários como definição
da razão objetiva imperante na história e/ou na natureza. Em Weber,
o capitalismo, como se designa desde Marx a primeira economia
objetiva da História, é a inteligilidade dos processos lucrativos,
mas quanto ao que é inteligível, resume-se aos ajustes dos meios
aos fins, em se tratando da ação operante conforme a uma meta. (7)
3
Assim como para a inteligência e o inteligível, tamvém para aquilo
que transita na cultura há variedade de explicações alternativas,
irredutíveis umas às outras. Os próprios caminhos da psicanálise
e da fenomenologia, não obstante o que vimos como arcabouço
sócio-evolutivo comum, não são convergentes. Na psicanálise,
existe uma base de instintos que correspondem a necessidades e
impulsos corporais de todo tipo, mas restritos a essa origem
psicossomatizada, base que é o verdadeiro objetivo da clínica, de
todo não miscível à biologia. A repressão e a sublimação vem a
ser os modos igualmente determinados pelos quais esses instintos ou
impulsos se convertem, por mascaramentos regulados assim como na
metáfora (condensação) e metonímia (deslocamento) que operam na
linguagem dos sonhos de modo a produzir cenas aceitáveis à mente a
partir dos impulsos que permanecem Inconscientes, em comportamentos
socialmente coordenados. (8) Na fenomenologia, os comportamentos
sociais estão integrados em totalidades sócio-históricas,
irredutíveis, cada uma por si mesma uma coleção de sub-sistemas de
símbolos unificados – exatamente ao modo dos acordes de certa
canção, formando uma configuração una. Não há nem pode haver
explicação de sua origem em termos causais, exceto que está
relacionada, assim como a criatividade humana, a certo contexto
ambiental adaptativo. O significado é pois formalmente independente
do contexto, mesmo se relacionado a ele.
4
Por fenomenologia, aqui estou situando a base mais ampla do
parâmetro da pregnância do todo, “estrutura”, organismo, campo
(à exemplo do eletromagnetismo) ou “Forma” (Gestalt) nesse
sentido da totalidade, sobre as partes (“funções”). O
parâmetro que inclui as variantes do existencialismo e hermenêutica,
tal que um ambiente “funcionalista” seria a designação geral
adequada. Os amálgamas, como da psicologia gestaltista e
fenomenologia de Husserl, e as variantes designadas, foram
constituindo-se na primeira metade do século passado, numa sucessão
de movimentos históricos. Tanto a fenomenologia como a psicanálise
que se desenvolvia do mesmo modo, paralelamente, não são portanto
monolíticos blocos de conceitos, mas, inversamente, dessas premissas
se desdobram em interpretações continuamente inovadoras, servindo
aos propósitos mais variados da cultura. Assim podemos considerar a
eficácia dos paradigmas de época.
5
Em geral o desacordo das opções e de suas variantes, amálgamas e
aplicações é grande, porém isso seria apenas o incremento do
pensamento produtivo, como permanente construção de novas moradas
na casa do pai, conforme a parábola de Jesus, se pudéssemos
instalar as contradições entre as duas grandes vias, as opções de
“fenomenologia” e psicanálise, apenas. Porém cada uma delas
repete inconsistências ligadas à premissa mesma. A maior, como já
referenciamos, dentre as inconsistências, é a circularidade
inerente que, ao contrário do que Heidegger pretendeu sancionar, não
precisaria ser a natureza do inteligível interpretativo, posto que
presume, ao contrário, a verdade estabelecida da cisão insanável
entre o ocidente da inteligência e o pré-epistêmico. O juízo a
propósito é circular e não demonstrado, mas assume-se como
demonstrado e não-circular – assim para a própria História do
Ser heideggeriana.
6
Não nos contradizemos ao afirmar que o próprio situamento da razão
evolutiva peca por afirmar-se circular e apresentar-se não circular,
assim porém apenas provando-se de todo circular – como ela mesma
pensava ser na abstração do seu situamento, por supor que estava
demonstrado. Pois o que afirmamos é a razão da circularidade, um
critério assumido evolutivo mas apenas como sua própria concepção
de evolução, quando não se trata de ciência natural, mas psíquica
e social. Antes das ameaças da hecatombe ecológica e da guerra
nuclear, essa evidência seria menos comprometedora, certamente, não
importando o ônus humano do neocolonialismo planetarizando-se.
Sempre restava a Ratio como tal, intocada.
7
A interligação da circularidade geoegológica – de um ego
geopolítico (evolutivo) como o sujeito do Logos – nas ciências
humanas é operacional. Não se o demonstra porém adequadamente
vendo por um vetor da psipatologia à ciência social. A utilização
das fases psicanalítica na ciência social primeiro foi feita só
por uma corrente definida (Roheim), só tendo se generalizado desde o
estruturalismo, e na teoria que vem de sua influência. Mas no vetor
contrário, a operacionalidade é comprovável in toto. Assim na
psicanálise (“Inconsciente”) e quaisquer das escolas que
conceituam a formação pré-egológica infantil (“Sub-consciente)”,
os comportamentos observados da criança são designados por sua
semelhança a comportamentos catalogados como primitivos pelos
antropólogos sociais. A voracidade na fase oral é designada
canibalismo na psicanálise, Wallon definiu a linguagem pré-egológica
como a função mímica das máscaras rituais de religiões da
África. Na Russia Soviética somente, Melvin Marx e William Hilllix
reportam a escola de Bruma Zeigarnik – epônimo do fenômeno
Zeigarnik, recordação de tarefas inconclusas e interesse da pessoa
por problemas não resolvidos - que não considera fixação numa
fase infantil à doença mental. Porém pelo que podemos considerar
da informação, é mais para isentar o jovem organismo da
possibilidade do desvio, ao contrário da hipótese das demais
escolas e da psicanálise em particular, do que para negar as
consideradas semelhanças entre sintomas patológicos e fases do
comportamento infantil. Apenas as semelhanças são por ela
discernidas como não identidade, devido ao carater degenerativo não
presente na fase adequada. Entretanto, o vetor da psicologia à
ciência social subsiste na imanência da pópria psicologia, como na
exemplificação da psicanálise, para a qual, conforme Pena, “é o
complexo edipiano que está na raiz de tudo quanto constitui a
civilização, ou seja, a moral, a religião e a política”. (op.
cit. p. 131)
8
Foi devido à enorme repercussão do estruturalismo como metodologia
transversão às ciências humanas, e em particular aos seminários
lacanianos, que coalesceu desde a segunda metade do século passado
um ramo que vem se designando “theory”, marcado pelo
pós-estruturalismo mas abrangendo os inícios do pós-modernismo.
Nessa tendência pós-estrutural, a explicação do Inconsciente,
freudiana ou pós-freudiana, tendo se multiplicado variantes,
tornou-se o único veículo na leitura histórica, dos autores e
movimentos do passado. Como para Rousseau na Gramatologia de Derrida,
o autor só é estudado como um “caso” que explica a sua produção
filosófica, mas o “caso” já está ele mesmo exemplificando um
contexto ideológico – o idealismo “ocidental” de fundo
platônico. Assim porém o conceito de “ideologia” se transmuta
no de “discurso” como axiomática (semiótica) do inconsciente.
Em meu estudo recente intitulado Tique, a Fortuna, sobre a gênese da
oposição de indeterminismo e idealismo, mostrei como de fato o
próprio Derrida, que assim recalca muita coisa para poder tudo
ajustar a um princípio único, não está isento do seu princípio,
sendo bastante platônico o seu matematicismo algébrico com que
define a escritura como “jogo”. A “Farmácia de Platão” é
um exemplo de “teoria”, mas ali fica bem nítido o forcing,
omitindo-se a relação do
“Fedro” entre desejo e ideal, e
o papel não cotidiano, antes
matemático e supra-mundano,
da dialética. Por
curioso que possa parecer, esse resultado converge com o que já ali
pudemos apurar da inspiração de Schiller na obra de Marcuse.
9
Quanto ao que seja a Razão, não nos aventuramos, ainda, a definir.
Contudo, a quetão subjacente a essa dificuldade, entre a definição
e a expectativa, é a variação na cultura – a mesma questão de
que se depreende o círculo geoegológico., Ora, as contradições de
base que os desenvolvimentos intrateóricos apenas perpetuaram não
poderiam se limitar a essa questão sem espraiar-se à antípoda,
como a questão do saber e o situamento da inteligência. Mas assim
vemos que as bases em cada caso, o instinto ou o significado, lidam
com uma cisão, relativamente à cultura, que ao mesmo tempo é a
subsunção da cultura como percurso à inteligência. Entre ambas,
cultura e inteligência, o fator indecidível existe, a política.
Uma forma de reducionismo do social ao psíquico, como campo de
atribuição do sentido, extrema, é a subsunção do regime político
a estados de espírito. Isso vem a ser feito na psicanálise pelos
kleinianos recentes – assim defendem a democracia, porém como
posição depressiva – e é também um escopo da via
fenomenológica. A princípio este objetivo não parecia estar claro
para Freud, ainda que, segundo Pierre Kaufman (in Chatelet, “História
da Filosofia”) ele tenha interpretado a situação da pessoa na
sociedade desenvolvida como angustiosa devido ao ter que assumir
responsabilidades, e analisado vultos históricos. Mas tem sido mais
explorado subsequentemente.
10
Marcuse parece estar investindo na hipótese dessa leitura ser
adequada ao problema da civilização como já incontornável na
altura da guerra fria e após as duas guerras mundiais, onde as
marcas de perversão supostas arcaicas foram porém o veículo dos
engajamentos coletivos. O problema, pois, da contradição espantosa
entre percursos ascendentes, ao mesmo tempo, do conflito social e da
inteligência produtiva.
11
Aqui consideramos, conforme o exposto, esse investimento sintomático
de um apego aos fatores que limitaram as bases teóricas em sua
contradição assinalável Ele deveria estar equacionando, outrossim,
o que estava desde aquele momento precipitando a evidência atual e
“pós-moderna” da contradição constituída pelo modo abrupto da
oposição preconcebida do desenvolvido e do sub-desenvolvimento. O
que na ciência da economia implica a obliteração sistemática da
interdependência de ambos na construção imperialista do
“capitalismo”. Porém o apeno apenas condicionava, perpetuava, as
tentativas contínuas de se tornar inteiramente aplicável as mesmas
oposições. Mas deveria ser esperável, ainda assim, que a situação
do tempo, o auge da guerra fria e o início da problemática
verdadeiramente feita visível, da descolonização via movimentos
bélicos de libertação, introduzisse ao teórico a necessidade de
ser refletida. Creio que um interesse pelo lugar histórico da obra
de Marcuse seria hoje renovado pela questão do grau em que a
necessidade se tornou sentida e consequentemente refletida.
Capítulo
2
I
)
1
O artigo de Marcuse que mais atenderia aos propósitos do
encaminhamento da questão, em Eros e Civilização, é o capítulo
10, intitulado “A transformação da sexualidade em Eros”. Já o
temos referenciado como o fio contudor que nos inspirou os
delineamentos temáticos até aqui. Os conceitos originais de
Marcuse, como seu propósito clínico-social, se entrelaçam de modo
muito coerente em seu texto, à explicitação de suas assimilações
da teoria psicanalítica. Os propósitos da questão que enunciamos,
em torno da situação histórica de sua proposta renovadora da
psicanálise, ligam-se em primeiro lugar, aos enunciados definíveis
como originais. Pois explicam a ordem de preminência que o
intérprete estabeleceu na sua relação com a teoria freudiana,
sendo algo mesquinho sugerir o contrário. A originalidade de Marcuse
é proeminente o suficiente para qualificar desse modo.
2
Os conceitos que Marcuse utiliza na sua proposta de renovação
psicanalítica estão relacionados à caracterização da libido, por
um lado; e ao estabelecimento de um referencial inteligível como
horizonte do político. Assim, nesse capítulo 10, reunem-se os dois
nucleos de interesse marcusiano co nforme expreso no título do
livro: Eros e a Civilização.
3
Na renovação da teoria da libido, Marcuse lança o conceito de
“propagação”, como um meio do desenvolvimento da sexuaidade que
conduziria a esta a um resultado designável como “auto-sublimação”
(p. 177 e 178). Aqui ele parece estar sendo inteiramente original,
mas sem dúvida num aproveitamento em profundidade das bases lançadas
por Freud. Quanto ao horizonte do político, Marcuse utiliza-se de
instigações românticas ou pré-românticas centradas na concepção
de “Estado estético” enuncada por Schiller. O exame desses
conceitos revela-se interessante ao propósoito de se compreender a
sociedade atual, tanto naquilo em que estava sendo criticada como o
avesso do que os conceitos propostos almejavam assegurar, como
naquilo em que presentificava certos objetivos políticos
possibilitados pelo seu modo de ser. E enseja incursões valiosas à
história da psicologia.
4
Quanto ao que revelavam também de um caráter documental da situação
da ciência psico-analítica, vemos que Marcuse desfaz a confusão
possível de sua posição com o que habitualmente se designa a
psicologia humanista, de Sullivan, Horney, Fromm e Clara Thompson.
Não são referenciados os representantes dessa escola mais
conhecidos como Karl Rodgers, Rollo May e Maslow, porém o essencial
da crítica atinge aqueles citados porque podem ser vistos como
revisionismo dessexualizante, relativo à teoria freudiana. É
geralmente como se os apresentam os manuais de psicologia,
mostrando-se assim, incluindo Freud, que a “teoria da
personalidade” mais relevante na história da disciplina está
dominada pela influência da explicação psicanalítica. (1)
5
Marcuse critica na tendência humanista, o que seria a meu ver a
interpenetração da fenomenologia na clínica, tratando-se de
retirar os instintos enquanto “necessidades” relativas a “fatores
biológicos” (p. 232) – como vimos, as necessidades somáticas
sendo filtradas e analisadas como necessidades psíquicas. Marcuse
não considera que o reducionismo culturalista, como se designa
habitualmente a psicologia humanista – porque ela não considera o
Édipo universal, mas apenas coerente à cultura ocidental – aí
definido, seja a proposta de uma escola independente de psicologia, e
não de uma escola psicanalítica. Como vimos, ele a considera emt
ermos de “revisionismo neofreudiano”, conforme exposto título do
trecho (p.205). Porém ele poderia também assim visar criticamente o
empreendimento lacaniano de “Os Complexos Familiares” (Rio
de Janeiro, Zahar, 2008),
que procedeu de forma explicitada a mesma redução. Nessa
publicação de 1937, Lacan expunha: “... em virtude das
obscuridades que o conceito de instintos opõe à crítica da
biologia contemporânea, o conceito de complexo, ainda que
recentemente introduzido, se vela mais adapatado a objetos mais
ricos”, e é por isso que, “repudiando o apoio que o inventor do
complexo acreditava dever
procurar no conceito clássico de instinto, acreditamos que , por um
reviramento teórico, é o instinto que se poderia escalrecer
atualmente por referência ao complexo.” (p. 17)
6
Lacan reflete nesse ponto sobre a impropriedade da subsunção na
ótica mesma do que Freud pensou na
forma do complexo, não obstante oq ue esperava haurir do instinto. A
reflexão lacaniana começa por uma definição do campo da
objetividade psicanalítica, na medida em que seria enunciável por
um princípio de ligação psicossocial, e não como a reserva do
psíquico subjetivo à “pesquisa psicológica”. (p. 15)
7
A princípio extrapola com efeito, a necessidade de se definir o
objeto da ciência da pessoa, e é mesmo, enquanto tal, um princípio
de sociologia, que subordina a compreensão da família humana à
“ordem original de realidade constituída pelas relações
sociais”. A junção à pesquisa psicológica, psicanalítica ou
de qualquer escola, é feita imediatamente, pela circunscrição do
seu objeto à “família”, enquanto esta “objeto
e circunstância psíquica”. Assim,
para Lacan, não se trata, na subsunção do instinto ao complexo
coibindo-se o inverso, de qualquer “etapa redutível da teoria”
mas sim sendo esse “condicionamento por fatores culturais à custa
dos naturais”, o “caráter essencial do objeto estudado”. O
objeto não é pois, a pessoa, mas as relações familiares que
traduzem os complexos formativos psicológicos. (1')
Um complexo “liga sob
uma forma fixada um conjunto de reações que pode interessar todas
as funções orgânicas desde a emoção até a conduta adaptada ao
objeto”. A “imago” é
o correlato de um complexo, enquanto é ela uma representação
inconsciente do complexo que antecede a sua
resolução em objetos conscientemente representados. O
complexo primeiro, relacionado à mãe, produz-se pois com a Imago
ambivalente de caracteres contrários unidos pelos contraditórios
sentimentos em relação a ela, até que a criança resolva o
complexo na objetividade do polo intersubjetivo definido como sua
mãe, pelo que a criança se auto-conceitua como filho ou filha.
Assim os complexos sucessivos do irmão e do pai.
8
O complexo é um precipitado de instintos passionais, ignorância e
solicitações culturais, vindas de fora, da própria família, ao
comportamento da criança. O complexo primeiro não é pois o enigma
materno, mas o implicado na exigência da criança trocar o processo
alimentício do seio da mãe pela mamadeira, e,
depois, a comida. O
seio seria a imago originária. Nesse aspecto ele é a segurança
absoluta que reside na não-individuação da criança relativamente
ao ser. A siblimação da imago do poder único e absoluto a reger
sobre a vida ou a morte
resulta na presentificação do sentimento familiar, quando a mãe é
reconhecida na exterioridade relacional, identidade definida. Lacan,
nesse ponto, observa a possibilidade do fracasso na sublimação do
complexo originário, como tendo por consequência a tendência à
morte na vida psíquica. Porém, ao mesmo tempo, a imago do seio
explica o que Freud designou o instinto de morte, inerente segundo
Lacan “a todos os níveis do psiquismo” (p. 25), não
apenas consequência mórbida.
9
Assim Lacan uma vez mais contradiz Freud e a teoria dos instintos
originários. Se é o complexo a “unidade funcional” do
psiquismo, não poderia ser por algo positivo, como na suposição
biologista freudiana de uma universal repetição do nada,
mas porque o
primordialmente experimentado não foi o correlato de “funções
vitais” e sim “a insuficiência congênita dessas funções”. A
criança provou o seio e
o temor de sua retirada, bem ao inverso dos animais que cessam sua
relação com a teta materna assim que sua fisiologia impõe à mãe
a recusa dessa via de modo que o filhote alimente-se como convém à
idade, com nutrientes fortes.
10
A criança humana tem um complexo, ao invés de simplesmente um
instinto, porque o seio para ela é mais
do que a fonte de
alimentos biológica, que poderia pois ser convenientemente
substituída. O sugar é
absorção mas integração do sujeito que absorve naquilo que é
absorvido, a unidade preenchedora da angustiante cisão inicial do
nascituro e do útero. Porém
não se tem assim apenas um certo modo de expressar o mesmo que Freud
supôs, quando definiu o instinto de morte pelo mecanismo psíquico
da repetição, já que este teria que abarcar o
estado anterior ao
existencial? Ao ver de
Lacan, há aí apenas oposição básica, pois a repetição de que
se trata não é natural – enquanto Freud a generalizava para todos
os seres biológicos. É
sim o originário essencial da inteligência humana que retem o
estado
anterior como unidade assegurada, o posterior como exposição à
mera continência do indivíduo num mundo desconhecido.
11
Marcuse considera,
contudo, antes que uma oposição total entre o natural e o humano,
um “livre jogo de necessidades e faculdades individuais”. (p.
177) É assim que ele pode
propor, ao invés da regressão como o que se seguiria a um projeto
desrepressivo movido como política consciente sobre as futuras
formações subjetivas, uma erotização da personalidade que não se
expressaria em “explosão pontual da libido”, mas em “propagação”
da libido harmonizada com o continuum de atividades socializadas da
pessoa. Surge aos
intérpretes de Marcuse, a questão de como a libido pode ser
generalizada numa totalização da personalidade, se ela é, por um
lado, a cisão da subjetividade que
se acreditava una, mas também a pluralidade dos instintos ou
pulsões, relacionadas a complexos formativos.
12
A princípio o
desenvolvimento da personalidade parece ter se orientado por uma
vontade deliberada de se obter um fundamento que ligasse os instintos
de algum modo, em algum tipo de processo ou necessidade fundamental,
e vemos que algo do pronunciamento lacaniano de 1937/38, ressoa com a
posição de Melanie Klein, expressa num artigo de 1958, mas sendo o
dela um desenvolvimento da “escola inglesa” em trânsito desde
antes da guerra. Assim, a seu ver, há uma “ansiedade primordial
contra a qual o ego luta” desde estágios muito iniciais da vida do
bebê, definida como “ameaça que surge da pulsão de morte”, tal
que o ego tem que se defender do perigo suscitados por sua própria
“pulsão de agressividade”. A pulsão de vida, que Freud designou
Eros, seria conforme ela a introjeção que converte o seio em
alimentador, ao invés de apenas canalizar para fora a agressividade
interna, como objeto de inveja da criança, por
projeção. O objeto de mau convertido em bom alimentador
se torna o núcleo do ego
– enquanto para Lacan,
inversamente, o núcleo é troca
do seio à mamadeira. Para
Klein, pois, o Eros ou pulsão de vida decorre da agressividade, não
são ambos apenas co-naturais, nisso
sua posição semelhante à
de Lacan. Sobretudo,
já em Os Complexos Familiares Lacan referencia a sua concepção do
estádio do espelho como um
relê da causalidade
psíquica interligando
algo mais
amplo do que o complexo
edipiano pela unidade do corpo e do pai. A
imago do despedaçamento é aí referenciada como "funcional,
determinado pelo especial incabamento do sistema nervoso", porém
relacionada à situação
angustiosa de separação da criança ao útero da mãe que ocorre no
nascimento. As assunções do despedaçamento e da unidade do corpo
seriam as duas manifetações psíquicas do sujeito em que a mesma
clivagem de separação e
união estão refletidas como numa "intencionalização"
definida. (op. cit. p. 77).
A princípio, aquilo que
Marcuse procede é a depuração do que designou “substância
instintiva”. Aqui as pulsões, que ele mantem como o elemento
originário, precisam ser isoladas de suas manifestações variáveis
na cultura, como o conteúdo invariável que as explica como casos de
um mesmo gênero. Na
psicanálise, qualquer manifestação do instinto desreprimido, ainda
não sublimado, é “perversão”, e, assim, Marcuse deduz que a
terminologia possa ser extrapolada
para
uma evolução formativa em que a desrepressão teria um efeito
diverso da manifestação socialmente
inaceitável do instinto.
13
Como vemos, tudo aí
depende de como se está conceituando a canalização do instinto num
percurso formativo, o que induz Klein e Lacan a interpretarem o
instinto como não a realidade positiva e natural, mas o correlato de
ativação do complexo, ou sentimento de insuficiência, ou
precariedade da condição existencial. Em
termos que Lacan induziria a utilizar desde escritos posteriores ao
que verificamos, em vez de demandas semióticas
fixas como correlatos de necessidades e satisfações profundas,
trata-se do primordialmente humano como apreensão da infixação do
significante, que não se estabiliza numa mensagem fora de uma
sequência a princípo fragmentada e mutante de sinais.
14
Na condução do percurso do instinto ao complexo por Marcuse, não
há atenção aos estágios preliminares da formação psíquica, mas
retenção do aspecto principal do processo freudiano no complexo de
Édipo. Ora, Marcuse observa que Freud estabeeceu no Édipo, as
relações de Imago da criança com o pai, como Laran diria, a
condição humana em termos de constante de civilidade. Não passível
de ultrapassamento sem a supressão do complexo infantil, o que
significa que em linguagem
freudiana, o Ocidente civilizado não seria suprimível sem regressão
à pré-história, que é o mesmo que a infância. Marcuse argumenta
porém que o próprio Freud não supôs, por outro lado, que o
complexo fosse persistente. Foi, sim, suprimido na infância e
na história, e seguiu-se
a civilização que
conhecemos, mas conforme acrescenta Marcuse, poderia seguir-se algo
outro. A compreensão das
relações de instinto e complexo em Marcuse expressa-se portanto em
exata inversão da lacaniana.
15
O
complexo dissipa-se tão naturalmente como os dentes de leite
soltam-se para os dentes permanentes crescerem assim como o destino
institual sublimado. (op. cit. p. 179) O complexo se vai, os
instintos ficam, sendo o que está por trás do comportamento atual,
como o corpo atual. É o
destino dos instintos que importa considerar, em sua relação com a
sublimação, se for preciso decisão sobre um futuro da civilização.
16
Como vimos, Lacan julgou contrariamente, que o sublimado é o
complexo e seu correlato, a imago.
Mas a ênfase do seu
desenvolvimento se colocou na centralidade do Édipo, enquanto uma
decisão de tudo ou nada, relativamente ao objeto de erleição da
sexualidade futura, de modo que também Lacan, como Klein, definiu um
correlato unificador da vida pulsional ligada pela sucessão de
imagos. Na enformação lacaniana trata-se
da diferença sexual, a personalidade sendo função da diferenciação
dos gêneros feminino e masculino, porém subordinada a uma estrutura
opositiva cujo sentido é a subjetivação do ativo, o masculino ou
“pai”.
17
Em Marcuse, um futuro da civilização rumo à ultrapassagem da
dondição perturbadora dos totalitarismos e violência opressiva,
não abrange como em Lacan, abuma superação da dicotomia sexual
enquanto gênese da disposição
hierárquica dos
valores embutida na própria possibilidade “lógica” da oposição
binária ou ato de diferenciar. Marcuse
pensa, ao invés, que o
futuro da civilização pode ser antecipado em substância como
auto-sublimação da sexualidade que assim não necessitaria do
trabalho repressivo, mas seria integrada sem dessesualização, em
todos os níveis da
interação prática e social.
18
Marcuse designa “instituições de princípio do desempenho”
aquelas que atuaram até agora como
fatores de canalização dos instintos à utilidade prática das
ações corpóreas. Aqui
compreendemos porém o verdadeiro alcance da subordinação
marcusiana do complexo em geral, e do Édipo em particular, aos
instintos. Ele enfatiza em sua interpretação, o nexo entre o Édipo
e a realização genital
da sexualidade diversificada em fases, inerente à teoria freudiana.
A diversificação é o modo pelo qual Freud pôde classificar sob a
égide da libido, os fenômenos instintivos anteriores à
concentração do interesse e excitação nas zonas erógenas
classicamente consideradas
os órgãos genitais. Assim
aquilo que chamamos sexo é na verdade a fase que culmina o processo
formativo infantil e histórico, em que os instintos foram ligados a
práticas culturais específicas, socializadas. Na infância a fase
genital compltou-se pela organização erógena correspondente, na
história ela se completou pelo Estado monogâmico civilizado.
19
Assim o essencial, ao ver de Marcuse, é que qualquer intervenção
na organização genital da sexualidade, implicaria a concepção
freudiana de regressão a uma das fases anteriores, oral e anal,
quando o interesse e a excitação eram ligados a estas outras partes
do corpo. Mas o que Marcuse pretende demonstrar é que haveria a
possibilidade de um escape desse dilema entre repressão e regressão,
insinuada já na forma pela
qual Freud mesmo passou a utilizar o termo Eros, em escritos
posteriores à comodação inicial da teoria psicanalítica. (op.
cit. p. 180). Marcuse expressa, pois, que “Eros, como instinto de
vida, significa um instinto biológico mais amplo, em lugar de um
âmbito mais vasto da sexualidade”.
20
Com efeito, se voltarmos ao momento crucial da ruptura de Freud em
relação à sua teoria inicialmente consagrada, concordaríamos
com essa asserção de Marcuse. A teoria freudiana inicial revelou-se
falha por implicar a definição do sonho como realização de um
desejo, porém a circusntância da guerra trouxe à clínica
psicanalítica os casos de neurose de guerra, na qual o doente sonha
com os acontecimentos do campo de batalha, de modo que não se
poderia de modo algum relacioná-los a um desejo do sonhador. Até
aí Freud havia sido hábil em contornar as mais diversas objeções
à sua teoria, inclusive respondendo a uma paciente que o confrontara
com um sonho particularmente difícil de interpretar conforme a
premissa, que o desejo onírico dela havia sido tão somente
contradizê-lo – a ele, Freud.
21
A hipótese de Freud na confrontação dos sonhos de neuróticos de
guerra, foi derivada da premissa biológica da época, sobre a
irredutibilidade de natureza entre o aparelho reprodutor e o
organismo em suas demais funções, visto que a reprodução parecia
estranha ao princípio de conservação coerente a todas as funções
restantes unidas assim pela pertença estrutural orgânica
(individual). Cabe
ressaltar que na biologia atual a convicção é perfeitamente
contrária a isso, pois a dificuldade em distinguir o inanimado do
animado na natureza conduziu, como Monod explicita
em Acaso e Necessidade, a incluir a “invariância reprodutiva”
entre as propriedades exclusivas de
um
ser vivo.
Havia
na
época de Freud a
premissa da repetição como mecanismo natural, e Freud observa que
ela poderia ser igualmente
observada em vários aspectos da vida psíquica,
das
brincadeiras das crianças aos sonhos, que assim seriam
simplificados pelos sonhos dos neuróticos de guerra.
22
Porém
a repetição teria que abarcar todos
os desempenhos, portanto alcançaria como instinto a meta pré-vital,
repetição do nada anterior à existência. Freud, em “Para além
do Princípio
do Prazer”,
reordenou a teoria psicanalítica em função dessa constatação
salvadora após o fracasso da primeira Traumdeutung, pela
qual a psicanálise poderia conservar a prerrogativa de explicar
satisfatoriamente os processos oníricos, apenas retificando os
conceitos. Na reordenação, a oposição inicial entre libido como
energia sexual inconsciente e ego como grupo de instintos de
auto-conservação, foi abandonada. Agora Freud pensava em termos de
pulsões ligadas ao instinto destrutivo, e aquela orientação
oposta, o Eros, que interessava a vida em novos projeos e objetos
afetivos.
23
Vemos que assim como Marcuse percebeu, Freud não distingue entre
Eros e sexualidade. Visto que, por outro lado, ambos os instintos
fundamentais estão ligados à sexualidade como
energia psíquica ou libido,
isso poderia ser colocado. Mas o que Marcuse enfatiza
é que o uso do termo Eros implicou “uma ampliação do próprio
significado de sexualidade”, (p. 180)
uma
vez que “as modificações da sexualidade não são idênticas às
modificações de Eros”. A descoberta importante de Marcuse é pois
que Freud só poderia, a partir daí, correlacionar a sublimação ao
destino da sexualidade, sem desse modo ter totalizado a destinação
de Eros enquanto instinto de vida.
24
A sublimação, de fato, faz aqui o papel da antiga oposição
libido/ego, pois, como Marcuse bem observa, “o conceito de
sublimação refere-se ao destino da sexualidade, sob um princípio
de realidade repressivo”, ou seja, conforme
a inicial oposição freudiana entre princípios de prazer e de
realidade como regentes respectivamente originários e desenvolvidos
da vida instintiva psíquica. O
que ocorreu na sublimação, não foi que a criança compreendeu a
inexequibilidade dos seus propósitos fantasiosos, mas
sim que a realidade imposta contra os seus desejos só o foi na ofrma
de exigências explicativas repressivas, vindas dos pais e da
sociedde, num âmbito familiar que restringe suas relações
intersubjetivas, e ela aprendeu, assim a mascarar a meta instintiva
em finalidades alternativas. Os
desejos originais instintivos sublimados eram sexuais, mas
tornaram-se satisfeitos por realizações que não obstante
libidinais enquanto afetivas, são agora muito distanciadas dessa
origem inconsciente, tendo-se tornado metas conscientes não-sexuais
ou assexuais. Na
sublimação como em qualquer repressão exitosa, decorre
insatisfação profunda aomodo de desprazer caso o conteúdo
reprimido retorne realizado conforme a meta original.
25
Marcuse examina aqui, o contraste aparente entre o que se segue dessa
premissa freudiana (p. 179, 180), e a assunção de Freud sobre que o
homem é feliz sempre que satisfaz um desejo originário. Aquilo que
se segue dessa premissa é, inversamente, que a sublimação
civilizadora, que transformou a satisfação de um instinto sexual
numa satisfação não-sexual, isto é, em atividade valorizada na
cultura, só conserva esse valor na civilização historicamente
correlata à evolução psicossocial do mesmo modo que na infância,
após consolidar-se a fase genital, tratando-se
de crianças de países civilizados.
26
O exame de Marcuse dessa aparente contradição freudiana
explora
a possibilidade por ele perseguida, que já Freud teria vislumbrado,
de alguma alternativa à sublimação que não fosse repressão dos
instintos que Freud ligara, porém como conteúdo reprimido, à égide
do princípio do prazer. Há pois uma lacuna explicativa localizada
por Marcuse, na medida em que Freus não define a relação entre
sublimação e instintos de vida, independentes dos sexuais e
geralmetne designados Eros.
27
Marcuse considera que a solução da questão suscitada por
essa lacuna está numa leitura mais atenta das variantes do conceito
de sublimação exploradas por Freud. Os próprios impulsos sexuais
não são todos sublimados, conquanto sejam todos desviados da meta
por causa da pressão educativa da sociedade. Assim como os instintos
sublimados, também as relações sociais seriam mediadas por
instintos insublimados, que embora estreitamente relacionados
aos sublimados, são desviados de outro mdo. Eles não abandonam a
finalidade sexual,mas são sustados por resistências internas e se
contentam com satisfação aproximada.
28
O exemplo da mudança de finalidade na sublimação é o que decorre
como atividade cultural, identificando pois a análise como tendo
origem sexual. Conforme
a psicanálise, o prazer do pintor em espalhar tinta em seu quadro
satisfaz sublimadamente o desejo anal infantil de espalhar os
produtos excrementícios. Já
o exemplo da resistência interna são as relações afetivas que
porém não atravessam a barreira até o desejo sexual, como na
amizade ou relações harmoniosas com os familiares, que
nunca são sentidas como atração sexual, e seria intolerável ao
sujeito a sugestão de que se convertessem em intercurso sexual.
29
Ao ver de Marcuse, o importante nessa variação é que a libido não
é abandonada junto com a meta primitiva, mas sim canalizada do
objeto ao corpo, que assim sente-se feliz com sua atividade
aparentemente dessexualizada. A
libido mesmo realizaria aí uma tendência genotófuga, conforme a
expressão de Roheim, realizando-se
assim na cultura por fuga à genitalidade, não por formas
alternativas, perversas, da sexualidade genital. O que Marcuse
percebe nesse ponto, é pois a junção da libido genitófuga com o
Eros ou instintos de vida independentes dos propriamente sexuais.
Conforme ele assume, “essa propensão 'cultural' na libido parece
ser genitófuga, quer dizer, afasta-se da supremacia genital, no
sentido da erotização de todo o organismo”. (p. 182)Assim
porém, Marcuse afirma o que deseja demonstrar em termos de
“sublimação não-repressiva”.
30
Contudo, até aqui lidamos com o resultado, ou da sublimação
repressiva, ou da resistência interna. A libido que se realiza na
forma sublimada, na cultura civilizada, não precisa mais ser
reprimida apenas porque já o foi. E
como Marcuse mesmo faz ver, todas as variações consideradas por uma
leitura mais atenta de Freud não extrapolam a circunscrição
freudiana do princípio de realidade. Nessa condição, a ideia da
sublimação não-repressiva só pode aparecer “em aspectos
marginais e incompletos”, enquanto Marcuse pretende, ao invés, que
ela atinja o nível, até aí não visado, da “sublimação sem
dessexualização”.
31
Mais uma vez parece lícito interpretar que Marcuse
pretendeu preencher a lacuna deixada pela cisão freudiana interna à
terminologia do Eros, entre instintos de vida em geral e sexualidade
em particular. Ele estabeleceu
a lacuna, e, em seguida, mostrou que ela era pressentida pelos
aspectos “marginais e incompletos” da teoria da sublimação que
aparecem como primeiras tentativas de alcançar um conceito firme de
sublimação não-repressiva. Mas o empreendimento total estava
comprometido pelo limite freudiano do princípio da realidade.
Marcuse complementa voluntariamente a teoria desde aí, removendo a
barreira no sentido de ampliar a perspectiva da sublimação
não-repressiva como alicerce necessário a uma cultura prensável
como o produto gratificante dos sujeitos ao invés de obediência à
demanda fantasiosa
de
utilidade social,
na verdade apenas dominação.
Esse produto seria a conversão da cultura em atividade estética.
32
Porém o desenvolvimento nessa via fecunda, está desde o início
referindo-se
a um outro aspecto da realidade e demanda pseudo-utilitária de
subalternação dos sujeitos à ordem social sobre-repressiva,
projetada
como autoridade coercitiva sobre eles, nos termos similares à
mais-valia de Marx. Marcuse, como vimos, concorda com a leitura de
Freud do inconsciente não apenas nos
termos de uma realidade definida na estrutura psíquica, mas o
referencial de um processo que separa, por um lado a infância e
pré-história, por outro lado a vida adulto e o mundo
histórico-social
civilizado.
33
Assim ele não considerou sua crítica dos limites do pensamento
freudiano, o problema epistemológico representado por essa
extrapolação do observável clínico infantil ao observável
antropológico-social como da cultura material. Vimos que Lacan
expressou a dívida da psicanálise com a psicologia, e na sua
carreira verificou-se algo de
suma importância na ruptura que ele empreendeu para com a informação
funcionalista, transitando
à estrutural de Levi-Strauss. Mas
assim
deveria ser esperável que qualquer
alteração na ciência social devesse refletir nas conclusões
psicanalíticas sobre a infância enquanto travessia do inconsciente
formativa da personalidade, se
a infância é por princípio assimilada ao conceituado estatuto
pré-histórico antropológico-social. A hipótese mesma da homologia
onto-filo-genética deveria estar continuamente sendo posta à prova
por esse meio. Como
já acentuei, a atribuição da infância subjetiva como infância
dos povos não é apenas praticada na psicanálise, mas na psicologia
em geral. O
etnocentrismo que
relega o não-moderno ocidental ao arcaico e destituído de História
nunca foi questionado, para bem ou mal, ao longo de um século de
psicopatologia, mas vemos ser manifesto que se algum dia uma crítica
dessa classificação fosse feita, e mesmo pelos povos que ela alijou
da normalidade de maturação da inteligência, então toda a teoria
psicopatológica teria
que ser seriamente reconsiderada. Ao menos na sua ambição de não
estar apenas explicando o desenvolvimento da personalidade em suas
variantes fundamentais, mas
também o desenvolvimento e significao do político e do cultural.
34
Um a priori epistemológico do etnocentrismo é a homogeneidade
integral do “socius”. Assim,
quando o darwinismo se estabeleceu na biologia, com a consequência
de um biologismo generalizado na ciência social “positivista”
e/ou “materialista”, o problema do capitalismo como dominação
de um novo tipo tornava-se agudo no plano dos fatos. Mas assim, em
vez de ter-se descoberto o “conflito social” e
tratado
o capitalismo nessa
definição,
de modo que a organização civil da
cidadania,
já
conquistada, não
fosse comprometida por ela, e, pelo contrário, se refletisse que era
em função da organização civil como existente que a aristocracia
do poder capitalista era vista como problema e não normalidade - da
iniciativa moderna ou da casta tradicional – fez-se
o oposto. Houve
a descaracterização da organização civil e a classificação da
sociedade Histórica (moderno-ocidental) em termos de capitalismo. A
heterogeneidade de classes
foi até mesmo conceituada, mas como funções do capitalismo, em vez
de heterogeneidade de interesses
a partir da cisão da sociedade civil contra o regime autoritário da
aristocracia. A
sociedade tradicional aristocrática jamais foi desestabilizada
em países como a Prússia e o Japão, para que nelas o capitalismo
fosse desenvolvido.
Na
Inglaterra, o que se seguiu só Parlamento foi um Império
neocolonial monárquico. As
forças sociais em prol da “democracia, cidadania e civilidade
foram assim rechaçadas
por uma reação aristocrática em pleno século XIX, mas no século
XX, quando a crítica do biologismo nas humanities foi feita, o
a priori da totalidade social não foi removido.
35
Nesse
sentido pode-se afirmar que a oposição metodológica de marxismo e
funcionalismo, em termos de modelos de conflito e de integração, há
muito já foi desfeita pela evidência de que o disnômico, um
conflito estrutural, pode ser um meio da coesão. Mas a noção mesma
subentende a coesão, cujo oposto não é o conflito de per se, mas a
heterogeneidade de que ele pode ou
não
surgir.
36
Em
todo caso, o pós-positivismo culturalista, em que a psicopatologia
coalesce, não
fez a crítica da totalidade social, e radicalizou a noção. Agora
as forças sociais do liberalismo político antagonizadas
pela aristocracia capitalística, tornaram-se
confrontadas também pela “esquerda”, que rejeitou-a como a toda
“civilização”, de
um modo ambíguo porém, pois não havia como não se estar
consciente de que os próprios termos da rejeição
utópica
eram já “civilizados”. Mas
as
mudanças nos conhecimentos antropológico-sociais, quanto mais
conduziam à evidência da heterogeneidade intrínsica, mais a
resistência à mudança conceitual crescia, atingindo a nova
radicalização que começa em Marcuse e se espraia até o
pós-estruturalismo do Anti-Édipo guattari-deleuziano.
37
Aparentemente
o que Marcuse empreende
é uma
crítica que já se endereça a aspectos etnocêntricos da teoria
freudiana. Porém ele sempre conserva a oposição que generaliza
estados abrangentes de todas as sociedades, independente de sua
heterogeneidade, como univocamente opostas à “civilização”
moderno-ocidental. Para alicerçar-se na ciência antropológica, o
Anti-Édipo, fazendo o mesmo, só pode lançar mão do próprio
positivismo oitoscentista, utilizando-se de Morgan.
38
Por
outro lado, a ênfase no complexo em vez do instinto, desde Lacan e
Klein, parece poder ser vista como um meio de responder à crítica à
libido como dotada ao mesmo tempo de objetos definidos e fonte da
pulsões. Pois, assim, não se explica porque dentre as pulsões
apenas pouquíssimas definem objetos pulsionais libidinais, como
oral,
anal e genital – a
que Lacan ajuntou
visão e audição.
Porque o tato, a cenestesia, a respiração, o olfato, e tantas
solicitações psicossomáticas se tornam rejeitadas como não
essenciais? O complexo dota
a libido de um sentido intrínseco nas
relações familiares (mãe, irmão, pai) assim como se
consubstanciam primitivamente, e a partir de solicitações
“pulsionais” (amamentação, educação sanitária, linguagem).
Porém
nas mudanças que se seguiram na informação antropológica-social e
geopolítica, decorreu o revisionismo culturalista, por onde o Édipo
não foi considerado universalizável – sem
que a noção de totalidade social fosse criticada, pelo contrário,
radicalizando a oposição de primitivo e civilizado (edipiano). (
2
)
39
Podemos
interpretar Marcuse e o pós-estruturalismo
num sentido contrário ao intuito de Lacan e Klein. Em
termos, pois,
de
uma síntese almejada da psicanálise original das pulsões e da
recusa ao Édipo como história do progresso universal. Em
todo caso, entre
o complexo ou
libido
e a pulsão,
há
portanto
um hiato
no interior da teoria psicanalítica freudiana.
40
Mas
as sínteses que podemos estudar terem sido feitas na história,
pelo complexo, ou pela pulsão, não chegaram à crítica do a priori
epistemológico da totalidade, mesmo
o estruturalismo. A
propósito, ver justamente a crítica de Althusser à interpretação
corrente de Marx como neohegeliano, centrada na rejeição da teoria
social de Hegel porque ela conceitua esferas sociais heterogêneas,
sem causalidade unívoca que
as “sobredetermina” como o capitalismo ou a luta de classes. (2')
A
síntese de Marcuse tem méritos demonstráveis.
Sua crítica da psicanálise demarca, como vimos, a ambiguidade
freudiana do Eros, enunciado como o instinto de vida que ligaria as
pulsões construtivas em geral, porém assim apenas subentendendo uma
cisão entre o que podemos aqui designar o eros sexual e o eros
meramente
criativo,
realizador.
A
repressão primária de que derivaria a sublimação necessária dos
instintos na via da civilização, seria pois um conceito freudiano
incompatível com a mesma ambiguidade, pois só poderia atingir o
eros sexual, mas Eros é um
conceito unívoco, sem distinção intrínseca.
40
Marcuse
considera pois, que Freud não percebeu o corolário de sua própria
asserção. A repressão não sendo universal, mas cultural, o
princípio de desempenho a serviço da extração do sobre-trabalho.
O mérito de Marcuse está na projeção da metapsicologia do Eros
realmente sem cisão do sexual e criativo. Assim
não haveriam objetos pre-concebidos ou eles seriam constituídos num
continuum das pulsões,
integrando-se mutuamente num progresso da personalidade cuja
função constante seria harmonizá-las ao seu modo, original e
adaptativamente.
Seria
desnecessário o nucleamento parental no inconsciente. Por
outro lado, Marcuse seria irredutível à “pirâmide das
necessidades” de Maslow,
nisso pelo que ele sexualiza, inversamente à pirâmide como
escalonamento de necessidades cuja base é autoconservativa.
Porém essa orientação de
Marcuse,
que seria proveitosa numa clínica desrepressiva,
se enuncia paralelamente a outros correlatos teóricos que
reintrojetam a problemática antropológica não criticada.
41
O
que Marcuse considera, repetindo o que vimos, é que os atribuídos
componentes
infantis pré-genitais às sociedades primitivas,
teriam que ser transformados na sua valoração à luz da sublimação
não-repressiva, aquela que transforma o móvel da realização do
instinto em outro socialmente aceitável mas não o dessexualiza,
resultando numa cultura sexual e não coativa da dessexualização
subalternizante da pessoa. Ao
mesmo tempo essa seria uma clínica política, pois os aspectos
ambíguos da teoria feudiana foram afinal interpretados como
dissimulação do princípio de desempenho, o equivalente marcusiano
da mais-valia marxista,
expressando-se na teoria da repressão primária. Aqui
teríamos uma relação interessante entre a crítica marxista
marcusiana, e a indagação constante de Lacan sobre o desejo do
analista, que, antes de tudo, é obviamente lucro (“preço”),
porém Lacan querendo assim mais enfatizar o que entende de Marx como
revolucionário
pós-capitalista
– o capitalismo como degrau necessário à liberação do
inconsciente, ao mesmo tempo o produto dessa liberação programada
como evolução desde o trabalho do negativo do significante. Mas
a questão
que
ficou subjacente e intematizada na
colocação de Marcuse, que ao menos tem
mais um mérito de não precisar tanto
do
capitalismo como meio da desrepressão,
é se essa oposição do desempenho normal civilizado ao primitivo
estético sexualizado realmente recobre a realidade antropológica
complexa. Examinando os conceitos positivos empregados por Marcuse,
podermos aprofundar o questionamento, abarcando
questões por ver na teoria psicanalítica em geral.
42
Mas desde já temos esse problema que é a defesa de um estágio
considerado de anterioridade ao genital, sem que se saiba como a
excisão do genital pode ser realizada a um
estado
atribuído da saúde psíquica. Se
é algo evidente que por
genitalidade se define, junto ao
momento do crescimento físico,
em que a criança se dota de consciência do seu
órgão sexual, a compreensão atingida do mundo de relações,
quando antes só havia a fixação fantasiosa, assim
como
narcisística, do signo. No
plano do político, à luz da crítica necessária ao etnocentrismo
poderíamos indagar como o capitalismo permanece considerado
“genital”.
II)
As
máximas consequências da junção, ao mesmo tempo que fundadora,
jamais esclarecida quanto ao seu modus operandi, enre clínica
psicopatológica e ciência social antropológica, esta que se
encarrega da observação e conceito da heterogeneidade das culturas
no tempo e no espaço. O caráter rasurado da temática chega a ponto
de se negar que a psicanálise tenha qualquer relação com a
sociedade, por ser clínica e terapêutica exclusivamente de sujeitos
(3). Porém sem que assim se pudesse conceituar os empreendimentos
teóricos-sociais psicanalíticos de Roheim e as incursões do
próprio Freud em Totem e Tabu e outros escritos em que a
pressuposição recíproca de ontogênese e filogênese é
explicitamente definida como a base da teoria. Nessa pressuposição,
os sujeitos utilizariam positivamente, em caso de desajustamento a
situação, esquemas já uma vez empregados pela espécie.
2
O complexo de Édipo desde a horda ancestral, onde teria havido um
déspota na posição de pai, depois a revolta dos irmãos contra
ele, e subsequentemente ao parricídio, o arrependimento expresso no
símbolo do totem – que também sublima uma das causas da revolta,
a censura contra o impulso incestuoso - explicaria as fases das
sociedades, entre animismo, religião (totem) e a moderna
objetividade (ciência/genital). Aqui, desde já, seria importante
sublinhar o caráter totalmente arbitrário da concepção freudiana
do parricídio originário, pois nada na antropologia induz a crer
nessa hipótese. A informação de Freud é a horda primitiva
darwinista, mas Darwin jamais colocou a ênfase num déspota. Na
verdade o “positivismo” oitoscentista que Darwin alicerçou
supunha justamente a total ausência de leis de parentesco que
induzissem à concepção de uma unidade da ordem no princípio dos
tempos hominídeos. (3 ') O escrito de Freud sobre a psicologia das
massas comprova que a figura de um déspota originário sobre a horda
é criação dele. Pois as hipóteses explicativas do fenômeno de
comportamento de massas com as quais ele polemiza, ao contrário da
opinião que defende, não pressupõem que o rebanho deva ter
necessariamente um pastor.
2'
A hipótese de um parricídio originário foi desde o início
criticada na antropologia, deixando de ter qualquer possibilidade de
adesão a partir de meios do século passado. Mas desde então
tornou-se considerada, por aqueles que defendem a psicanálise e/ou a
metodologia estruturalista, uma espécie de instrumento heurístico,
um meio de figurar o surgimento do despotismo na história.
3
Além do que já referenciamos de Pena a propósito da pretensão
psicanalítica antropológica, expressa Pierre Kauffman, defendendo-a
e citando Freud, que “a psicanálise está em condições de
lançar luz sobre 'as origens de nossas grandes instituições
culturais: religião, ética, direito, filosofia'. Ela é capaz disso
na medida em que restabelece seguindo seus traços (nachspurt), as
situações psíquicas primitivas, que deram impulso a tais
criações”. (4) Na colocação de Kauffman, é a segunda teoria de
Freud que fundamenta epistemologicamente essa pretensão
psicanalítica de ser a única autêntica “teoria da cultura”.
Assim como seria também a mola da transferência. Ambas as
situações, tanto a relação ontofilogenética como a transferência
ao psicanalista do rapport libidinal que está na origem do complexo
do paciente, são situações definíveis como repetições, assim o
instinto de morte ou agressividade seria operante na transição da
unidade narcísica original à polaridade do Eu e do Outro. Por outro
lado, quando se trata da esfera da cultura, é definida como a
castração, ou seja, a estabilização definitiva da polaridade. Não
obstante, uma vez que na polaridade o que se estabelece é apenas a
hiância entre o eu e o outro, a instituição desenvolvida induz à
angústia por um lado, por que se desfaz todo desdobramento que na
história vinha se presentificando, daquele Outro primordial em quem
o primitivo depositara a crença totêmica. Mas assim vem a ter a
instituição o papel de restabelecer a segurança, por outro lado.
Conforme Kauffman: “Aos momentos sucessivos da crença,
corresponderão as posições sucessivas da 'verdade histórica'.
Portanto, mitos, religião, direito, são substitutivos da caução
de que o infans estava imediatamente assegurado pela crença infantil
em sua onipotência.” (p. 53) A posição epistemológica é
esclarecida, pois no Édipo originário, o parricídio originário
instaura a posição da ausência como capacitação ao exercício do
poder classificatório. A posição do morto ou ausente permite pois
a irrupção do “pensamento abstrato”, assim como também o
estabelecimento do “elo social”.
5
Kauffman observa que o paralelismo entre a situação infantil, a
neurose ou psicose, e o mito primitivo em que nações inteiras
estacionam como pré-científicas, se rompe, contudo, por isso que em
cada uma das três instâncias o significado da mesma coisa produz
efeitos irredutíveis. É o mesmo totem, no neurótico e no
primitivo, porém naquele sanciona a deserção do social, neste,
pelo contrário, é o ato da socialização em si. Freud designou a
criança o “perverso polimorfo”, que apresenta num continuum
todos os comportamentos que se não superados, fixam-se, cada um
deles, como uma perversão definível. Ora, o perverso polimorfo que
é o infans, ao
idealizar um totem“passa
ao ato por sua própria conta”, conforme Kauffman, mas “o
hominídeo só promove o totem enquanto partícipe do assassinato
coletivo. E nisto consiste a realidade histórica, o estatuto
acontecimental, emprestado por Freud a este ato”. Porém
podemos contrastar essa ilação de Kauffman com o Anti-Édipo
(“esquizoanálise”) de Deleuze e Guattari, que
deduzem de modo oposto.
5'
Ao considerar que a libido é
energia de produção ou atuação, assemelham-se ao objetivo de
Marcuse, que é sexualizar as
realizações totais. Porém
o Anti-Édipo define uma transformação mnésica da libido, o numem,
que seria o equivalente do superego freudiano, mas também uma
transformação subjetivante,
a voluptas
que, em vez de um ego, seria exatamente a repetição do
“estatuto acontecimental”
– para utilizar a expressão de Kauffman. Ou seja, se
libido, numem e voluptas são equivalentes de id, superego e ego,
quanto a este o
autoconceito não seria
individualizante, mas seria
por identificação, a
variável dos “povos”
(sociedades étnicas),
condições (mulher,
criança, etc.) e seres
naturais (animais),
de modo que o sujeito se
resolveria numa sucessão contínua de “devires”.
O que seria exemplificável
com o menino ocidental que faz seu totem. Ele estaria repetindo,
mas assim efetivamente
“sendo”,
o totem selvagem – portanto,
numa dedução oposta à de Kauffman.
Claro está que tanto o
infans de Kauffman, quanto o mutante deleuze-guattariano estão
restritos ao moderno-ocidental.
Os demais povos não podem se
individualizar o variar, cada um deles é uma possibilidade da
variação que exclui as outras. A
fórmula que os singulariza no
inconsciente ocidental não
se reduz ao imaginário de
qualquer um, mas como vimos, é um caso real de semiótica
inconsciente, “mapeado”,
isto é, analisado ou projetado, inteiramente pelo Ocidental.
Não obstante nunca ter saído da Europa, o europeu é ele mesmo
Tuareg, Árabe, a fórmula do
“negro” não tem proveniência étnica
ou nacionalidade,
é a mesma para todo “negro”, etc.
Ao mesmo tempo que fora da
História de qualquer sociedade, assim
como das problemáticas inerentes a qualquer condição,
o ocidental devirenesco é porém aquele que faz a história de
todos,
uma vez que ele “se torna” x variando x.
5''
Quanto ao Édipo, ele
é o fiat da teoria
freudiana da cultura, mas se Deleuze-Guattari o denegam, adotando a
posição culturalista, não deixam menos de caracteriza-lo como a
variável que define o acontecimento
do homem comum moderno-ocidental, identificando
eles o estado civilizado com o capitalismo.
Ora, os demais socius
conhecidos, primitivo tribal e bárbaro imperial, que
Deleuze-Guattari classificam utilizando a terminologia
de Morgan, seriam
codificações para-si
invariáveis, e só o capitalismo, para liberar
o fluxo do dinheiro, seria a
desterritorialização, tanto
espacial (expansionismo
imperialista)
quanto, digamos, ideológica – com a superestrutura sendo a
codificação expressiva da produção. Assim o capitalismo é o
único socius ou código que tende a descodificar-se a si mesmo, e
eis que ele coincide, portanto, com a natureza suposta esquizofrênica
(variável) do desejo. Ao
contrário de todas as correntes psicanalíticas e psiquiátricas,
Deleuze-Guattari não consideram a esquizofrenia patológica. É
bastante nítido que a classificação oitoscentista positivista que
Deleuze-Guattari reutilizam apenas reproduz os estágios oral, anal e
genital, que eles mesmmos recusam como a prioris de um inconsciente
determinado pela teleologia do Édipo. Uma
vez que Marcuse omite
considerações a propósito da
esquizofrenia, é porém
lícito supor o conceito de inconsciente esquizofrênico do
Anti-Édipo como uma
interpretação de Eros e Civilização de Marcuse, com a ressalva de
que a concepção “maquínica” do Anti-Édipo parece algo
contrastante ao humanismo de Marcuse. Quanto
à antipsiquiatria de R.D. Laing e David Cooper, não denegam de fato
a esquizofrenia patológica, além
do que seria um nível de esquizofrenia normal nas sociedades
capitalistas avançadas devido às contradições inerentes, mas
consideram dever-se tratar a
patologia em termos não
repressivos, mesmo admitindo
casos de necessária
internação.
5
'' Escusado repetir que na
variação “esquizofrênica”
do anti-Édipo e Mille
Plateaux, o
“devir”
de que se trata não
significa indeterminismo, é
apenas repetição das
fórmulas culturais que definem os povos como semióticas, do mesmo
modo que em Freud os acontecimentos do
inconsciente. Assim
na esquizoanálise há duas repetições, a boa, como na
transferência psicanalítica, e a ruim,
que seria um devir não libertário, repetição
dos comandos do capitalismo, ou qualquer outra assim
correlato do instinto
destrutivo.
Assim a repressão primária
torna-se não denegada de todo, mas atribuída ao “numem” como o
que me parece a opção de Marcuse, entre a repressão social e a
autosublimação.
6
Independente da precaução
em demarcar, com ou sem razão, a diferença da criança normal
(desenvolvida) e dos acontecimentos dos povos sub-desenvolvidos,
não devemos subestimar a pretensão psicanalítica como teoria da
cultura. Assim creio ser
oportuno lembrar que Oto Rank classificou todos os escritores
romanticistas que praticavam
o gênero literário do duplo – em que o protagonista é duplicado
por um sósia, sombra ou reflexo -
como Dostoievski e Heine - psicóticos paranóicos totais, isto
é, no último grau da loucura. E
se Rank representa uma
dissidência contra Freud na psicanálise, assim Deleuze (5)
o apresenta, em termos de um
nietzschiano que pela vontade de potência coloca a pulsão isenta de
sublimação – como se fosse mais liberal do que Freud, e no
entanto, é este quem, ao contrário de Rank, explicou a literatura
do duplo como já expressão do superego, não narcisismo primário.
Porém Freud cumprimenta Maria Bonaparte por um estudo sobre Poe que
o classifica como doente
mental.
7
Em Marcuse, as consequências
da homologia
onto-filogenética são nítidas, pela impossibilidade de libertar o
que se quer valorizar como desreprimido mas já
sublimado, isto é,
culturalmente inerente mesmo na contingência de sociedades julgadas
pré-civilizadas. Será
necessário continuar o exame dos textos, visando aclarar
a ambiguidade.
Em
todo caso, Marcuse é
irredutível à rejeição Rank-deleuziana
da sublimação em si, nele o
conceito oposto à repressão primária é a autosublimação. Aqui
seria oportuno referenciar a
relação
de Marcuse com a
corrente que se designa “Teoria Crítica” (“Escola
de Frankfurt'), cujos
inícios remontam a Walter Benjamin, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, este de
quem Marcuse se considera expressamente filiado
quanto à posição teórica, no prefácio da
edição inicial de Eros e
Civilização. O
contexto de época benjaminiano, bastante relacionável
à Vanguarda surrealista e a
Heidegger, posicionou-se
contudo
na contracorrente civilizacional psicanalítica. Não se trata de
homogeneizar um horizonte de
pensadores
e poetas muito rico e
multifacetado, assim por exemplo vemos que a valorização
do surrealismo por Benjamin não equivale a mesma posição de Breton
quanto ao inconsciente, que este não rejeita. E
nesse sentido, Marcuse é o
único a introduzir o inconsciente na corrente designada
“Teoria Crítica”. Mas sim trata-se
de observar a índole geral da época, contrária à progressão
simples de um estado mítico ao científico. Toda a crítica política
da época, independente da pertença teórica, foi hostil ao
progresso, implementando uma
concepção da volta ao mito como movimento necessário a um
horizonte futuro desvinculado da dominação. A
ciência estava soldada ao
capitalismo, não sendo considerada o contrário da ideologia nesse
sentido, ainda que pudesse não ser ideologia quanto à
objetivação. Mas assim como
em Marcuse, o mito não era a repetição do passado, e sim a
retomada de um início que devia continuar sem a repressão
capitalista que interrompera
o curso natural das coisas.
Sorel o exemplifica, julgando
que a luta de classes, que já não podia ser demonstrada como a
invariante mecanicista da história, devia ser alçada a mito com a
mesma força ativa que na Antiguidade havia tido o mito cristão.
Marcuse habilmente interconectou essa premissa à teoria de Freud
para desabilitar nela o
pressuposo de um caráter necessário da repressão primária. John
Strachey designou Freud, com
efeito, “um dos últimos
grandes teóricos da classe capitalista europeia”, enunciando “com
singela clareza, a impossibilidade de crença religiosa para o homem
educado de hoje”. (6).
7'
É importante considerar aqui
a defasagem da informação antropológica que estava por trás
desses desdobramentos, tanto como do que atacavam na vertente oposta
como progressismo. Baseavam-se todos na convição que hoje já está
desacreditada, de que somente
o moderno-ocidental tem mentalidade histórica, isto é, processual
em devir, contra a “tradição” ante-moderna do “mito”, como
mentalidade estática. Na verdade já sabemos hoje que as sociedades
tribais tem informantes que por sua boa memória são escolhidos como
repositório do saber da história efetiva da tribo, desde a migração
ao lugar e os acontecimentos singulares, da fixação à
relação com a sociedade nacional geralmente opressiva. Estes
informantes não
misturam a história com o mito. Quanto ao papel deste, é muito
variável de povo a povo. Assim também não se acredita já na
classificação que Deleuze utilizou. Povos tribais que seriam
selvagens podem apresentar fenômenos de império intertribal ou
intraétnico, enquanto há povos que são igualitários e
independentes. A organização
social de Estado formalizado não depende de haver imperialismo
ou déspota divinizado, o Sumer do quinto ou quarto milênio ac.
Está tendo os documentos e
sítios arqueológicos hoje interpretados como um tipo de democracia
ou parlamentarismo, com participação comum de mulheres em cargos
importantes. Em geral a
posição de Deleuze-Guattari ou Pierre Clastres, assim
como da antropologia anterior à atualidade,
a propósito das sociedades simples não terem Estadom
é contraditada pelo fato de que todas as sociedades tem leis e
instituições do seu cumprimento,
inclusive, como atualmente
conhecido, leis não confundidas com os costumes.
A propósito, ver o “Antropologia Social” de Emilio Willems.
8
Lacan não aparenta ter
tencionado lidar com as mudanças na informação antropológica. Mas
parece ter atacado diretamente essa questão intrateórica do
progressismo no seu Seminário
inicial, entre 1953 e 1954, uma
vez que a posição temporalizante estruturalista retoma a posição
inicial progressista
de Freud,
ligando-a contudo à
possibilidade revolucionária do
marxismo. Mas
assim possibilidade
como que igualmente
interiorizada na vida afetiva de relações. Uma
das tangências da questão, inclusive, é o destino da afetividade
subjetiva. Por um lado, Freud
não acreditava no casamento
como fonte de felicidade sexual, mas
sim como conversão do amor sensual em ternura Nas
sucessão das fases formativas, a corrente de ternura se designa a
acalmia do interesse infantil pelo sexo,
após o Édipo e a “castração”, de modo que só na adolescência
é que ela o retoma. A
proximidade cotidiana era conforme Freud o contrário do meio
necessário à sedução – para
Lacan isso equivalendo à confissão freudiana de que já não amava
a esposa. Mas podemos
considerar que o casamento,
desse modo, exerceria o
benéfico papel de sutilizar
o ímpeto que naturalmente, com a idade, deveria arrefecer, salvo
naqueles neuroticamente
insatisfeitos ao longo do
percurso da infância. Por
outro lado, comenta-se amiúde que a transposição dos obstáculos
ao acesso ao
genital, que a psicanálise promete,
equivale à garantia da perene
felicidade conjugal, pelo
ajuste perfeito da personalidade ao amor, como relação escolhida e
socializada. Neste Seminário,
Lacan colocou
o problema do progresso por esse ângulo. Ele alude à pergunta de
Balint a propósito da finalidade do tratamento: “Será
análogo ao fim de um processo natural? O amor genital – esse
Eldorado prometido aos analistas e que nós prometemos bem
imprudentemente aos nossos pacientes – é ele um processo natural?
Não se tratará, ao contrário, apenas de uma
série de aproximações culturais que só podem ser realizadas em
certos casos? O
término da análise será assim dependente de toda espécie de
contingência?” (7).
9
Ora, a questão é tratada
por Lacan ironizando a
oposição de Balint, entre
o pré-genital, “primary love”, e o “genital love”. O
primeiro seria um amor no qual o objeto não tem
nenhum interesse em si mesmo, “Absolute
unselfishness”. (p. 266) O
primary love se
caracterizaria pela recusa da realidade, recusa do reconhecimento das
exigências do parceiro. O que conta é a satisfação da necessidade
– assim, de fato haver o amor é contingente,
se a mãe, que é o objeto que o tipifica, não deixasse qualquer
traço de insatisfação em
seu trato com a criança, o amor da criança nem seria expresso para
si mesma: “Tudo o que se
manifesta é, pois, simplesmente um obstáculo à situação
fundamental, relação a dois, fechada.” (p. 274) Porém
o trânsito ao genital love convem do mesmo modo à ironia. Se
“o que faz a diferença do genital love
ao primary love é o
acesso à realidade do outro como sujeito”,
de modo que aquele
que ama “ocupa-se da
fruição do seu parceiro, mas também das demais exigências que
existem em volta”, se amante
se torna consciente da
alteridade subjetiva do amado, “para
Balint”, segundo Lacan, “isso é próprio ao dado. É assim
porque um adulto é muito mais complicado do
que uma criança. Fundamentalmente, o registro da satisfação é o
mesmo. Há uma satisfação fechada, a dois, em que o ideal é que
cada um encontro no outro o objeto que satisfaça o seu desejo”. E
a ironia vem com a pergunta: “Mas essas faculdades de apreciação
das necessidades e das exigências do outro, que são requeridas no
estado genital, de onde fazê-las sair? O que é que pode introduzir
no sistema fechado da relação de objeto, o reconhecimento de
outrem? Nada pode introduzi-lo aí”. A contradição de Balint
segundo Lacan é pois que o genital love, o nível da
intersubjetividade, só é explicado pelo primary love onde nem
mesmo há subjetividade. (p.
277, 278)
10
Lacan
considera pois que tal posição é impossível, e a substitui pela
interpretação da intersubjetividade originária. Não
há um fechamento original, sempre o inconsciente é a questão do
outro. A oposição entre o
“perverso polimorfo” e o adulto, não seria que neste todos os
traços das perversões são ausentes. Inversamente, eles
estão presentes, porém conforme
a economia do “simbólico”, oposta à primeira,
do “imaginário”. É
na fala que a intersubjetividade originária se resolve na
consciência da alteridade. Enquanto
o simbólico ou a estrutura da linguagem não intervem, as mesmas
perversões se exercem sem o limite, estando
a intersubjetividade imaginária comandada apenas
pela fenomenologia do olhar. Lacan nisso elogian Sartre por ter a
partir do olhar feito a
genealogia fenomenológica da vergonha, do pudor e
do prestígio, ou
seja, de todas as instâncias que decorrem da polaridade do Eu e do
Outro, até
uma concepção do amor que parece a Lacan “irrefutável”, e que
ele considera do seguinte modo: “Queremos nos tornar para o outro
um objeto que tenha o mesmo valor de limite que tem , em relação à
sua liberdade, o seu próprio corpo”.
(281, 282) Assim
o sadismo não deixa, segundo Lacan, de definir
o amor genital, enquanto a exigência não
da total
supressão da liberdade do
parceiro, mas de certo limite
fundamental a ela: “É preciso que uma liberdade aceite renunciar a
si mesma para estar, a partir de então, limitada a tudo que podem
ter de caprichoso, de imperfeito, e mesmo de inferior, os caminhos
para os quais a arrasta o estar cativado por esse objeto que somos
nós mesmos”. E “se o
amor está inteiramente preso e enviscado nessa intersubjetividade
imaginária”, ele só se realiza “pela participação no registro
do simbólico”, na “troca liberdade- pacto que se encarna na
palavra dada”. sendo
“pacto inicial, o 'você
é minha mulher'
ou 'você
é meu esposo'...”.
11
Ora, Lacan parece
incorrer
nessa contradição pela qual a monogamia – na
qual se resolve a fenomenologia sartriana do amor como se fossse
universal – é o modelo do
pacto simbólico.
A
realização do amor continua
oposta ao pré-genital como ao imaginário, pré-simbólico, e
assim a perversão da criança nem é igual a do adulto, nem deixa o
adulto de poder ser são, independente dos traços perversos de suas
relações intersubjetivas.
Porém Lacan se esquiva ao sustentar que a
criança é apenas mais presa do imaginário que do simbólico e do
real, na verdade, para ela, só havendo inicialmente “o simbólico
e o real”, os dois polos
entre os quais o imaginário se constitui
(p. 285).
Esse recuo do simbólico,
cujo predomínio na vida psíquica demarca só a fase genital, até a
origem, é algo semelhante ao que Melanie Klein já havia feito com
relação ao próprio genital. Ela considera assim que o genital já
existe desde o início, porém não é nem deve ser sobreposto ao
predomínio dos polos erógenos relativos a cada fase precedente,
oral e anal. Podemos perceber como a
orientação de Lacan e Klein vai num sentido oposto ao de Marcuse,
por isso que a sexualização das
pulsões meramente realizadoras, por extensão sexualização do
trabalho, que Marcuse propõe, é em Klein considerada
não como algo que deveria ser alcançado por mudanças
histórico-sociais, mas sim como possibilidade de desvio na formação
psíquica. Uma vez que “sensações e desejos genitais operam
possivelmente a partir do nascimento”, sendo por exemplo bem
conhecido o fato de que bebês do sexo masculino tem ereções desde
muito cedo. Conforme ela, a ativação precoce do genital se deve ao
caráter excessivo da inveja que a criança sente normalmente pelo do
seio da mãe. A inveja quando excessiva interfere na gratificação
oral adequada, agindo assim como estímulo à intensificação dos
desejos e tendências genitais”. Conforme ela, “a
interferência das tendências genitais
no predomínio oral solapa a grarificação na esfera genital, e
muuitas vezes é causa de masturbação obsessiva e de promiscuidade.
Isso porque a ausência da satisfação básica introduz elementos
compulsivos nos desejos
genitais e, como já vi em alguns pacientes, pode assim resultar em
que sensações sexuais entrem em todas as atividades, processos de
pensamento e interesses.” Como é esse resultado mesmo o que
Marcuse considera politicamente desejável, fica
assim patente a oposição da meta clínica. Klein de fato radicaliza
a oposição: “Em certos bebês, a fuga para a genitalidade é
também uma defesa contra odiar e danificar o primeiro objeto [o seio
do aleitamento], em relação ao qual operam sentimentos
ambivalentes. Tenho
verificado que o início prematuro da genitalidde pode estar ligado à
ocorrência precode da culpa, e é cracterístico dos casos
paranoicos e esquizóides”, comunicando-se aos maníacos-depressivos
– a propósito ela cita os
seus artigos “The importance of Symbol Formation in the development
of the Ego”(1930) e “A contribution to the Pschogenesis of
Manic-Depressive States” (1935) .
Assim também, a interferência genital na fase oral ela crê ser
“característica frequente nos indivíduos com fortes traços
esquizofrênicos e na esquizofrenia declarada”.
7 '
E devemos lembrar que o
simbólico originário é
designado por Lacan
como a possibilidade de nomear. O imaginário da infância, onde
o simbólico se elabora até a plenitude da
objetividade pragmática,
só pode ser alcançado pelo psicanalista, conforme os traços
infantis na fala do adulto e
pelos acontecimentos biográficos do sujeito.
12
Entre
a possibilidade e a nomeação, o
olhar é o eixo da tessitura
imaginária, que
não se radica assim na
necessidade, conforme a lição
do Seminário 1. Na
verdade Lacan expressa apenas um paradoxo, portanto, entre a
objetivação da alteridade como plenitude do simbólico, e
a impossibilidade de haver
concretamente alteridade que
não seja apenas a lei inconsciente do sujeito ele mesmo. Em outros
lugares de fato Lacan nega que haja “intersubjetividade”, o
que podemos considerar no
sentido de Hegel. No seminário de 1964, conta a história
de sua conversa com um pescador humilde com quem estivera mantendo
amizade, na qual o pescador aponta uma lata flutuando na água,
falando numa linguagem
popular que Lacan podia estar olhando a lata, mas a lata não olhava
para ele.
Lacan comenta que, ao contrário do
senso comum, a lata o via
sim, enquanto partícipe do
mundo de sentido dele mesmo.
Contudo, nada
da crítica ao genital love de Balint,
impede que Lacan considere válido classificar um “caráter
genital”. (8) Ou
que ele não considere não haver necessidades quando opõe
necessidade e desejo. Na
análise da histeria, constando no Seminário 5 intitulado “As
formações do Inconsciente”, Lacan considera
haver
um chiste do desejo relativamente à necessidade ou demanda, que é o
fato da própria demanda, tudo a que se resume o querer pré-genital
da criança, conter nela
mesma a
hiância, uma vez que o querer implica o não ter ainda. Mas o
objeto do querer como demanda é necessidade. O desejo, pelo
contrário, enquanto genital, não seria por si só o desejo sexual,
mas essencialmente a realização conceitual inconsciente do que é o
universal da necessidade, a carência. O
pivô da argumentação gira em torno do falo como significação ao
invés de como objeto. Há
assim uma carência que é desejo, não demanda de necessidade.
13
Na relação fechada que Balint conceituou, poderíamos reconhecer
algo da concepção da
totalidade funcional que permeava os
horizontes da teoria anterior ao estruturalismo. A totalidade
indiferenciada, ao contrário de Freud, era vista aí
como a coletividade em termos
de núcleo da nova teoria política, culturalista
e não “positivista”.
A totalidade como referencial
do político contra o capitalismo
não seria apropriada à linguagem do esclarecimento, ela
seria antes o conteúdo vivido dos mitos, que
como vimos em Sorel, mas este por influência de Bergson, eram
considerados a verdadeira mola da ação dos homens.
14
O intuito lacaniano,
não obstante o elogio a
Sartre, parece bastante contrastante
ao anti-progressismo
culturalista. Na sua crítica
a Balint
vimos que
não havia rejeição da evolução, que em Lacan é tratada em
termos de funções, tópicas ou posições, em vez de “fases”.
Apenas havia a constatação de
falácia pseudo-explicativa no tratamento da sucessão tópica.
Inversamente, não obstante
crítico do revisionismo culturalista e Horney e outros, Marcuse
encaminha-se resolutamente ao que poderíamos designar o pré-genital
love. A explicação do
caráter necessário da função genital em Lacan coloca-se
como observamos acima, pela
problemática do Saber
ou “simbólico”. Aqui é
oportuno lembrar que o “simbólico” não significa simbolismos
quaisquer, mas sim configurações
definidas de um saber, ou assim considerado como tal, nas culturas. E
supondo que elas evoluem até o saber científico, o simbólico
enquanto tal. Como na designação de Peirce, o símbolo é o signo
arbitrário, como o número ou palavra, oposto ao ícone (à imagem
da coisa), ou ao índice (como a fumaça para o fogo).
15
Assim, de fato a genitalidade como fato natural da maturação
somática é bem irredutível ao que realmente precipita a clivagem
do gênero sexual, como acesso aos níveis superiores da inteligência
como pensamento permeável à apreensão de relações. Tal
que o sujeito possa apreender a relação mesma do Saber, entre o
objeto e o sujeito, superando assim o mito da revelação do mundo
imutável da autoridade
infinita – o “significante mestre”. Em Lacan, o fator
determinante é a assim designada castração, a descoberta da
diferença a partir da clivagem do feminino e masculino, quando a
criança percebe o sexo da mãe não igual ao falo do pai. A
constatação inesperada da criança, do corpo da mãe invaginado,
Freud tendo asseverado que a criança sempre conta até aí com a
identidade do falo.
O acesso à relação e
diferença é pois o catalizador da formação da
aptidão ao saber e ao regime genital desde a infância. Mas esse
acesso sendo o o móvel oculto das transições da Imago até a
visibilidade plena que, porém, não é mais o correlato do
Inconsciente como tal. Pelo contrário, o que facultou foi a
estabilização do ego como sujeito da cosnciência, operante
pragmático dos jogos de linguagem.
16
A criança “é” pois sem
consciência, até a decepção
na “castração” operar a
clivagem, a oposição real do consciente e inconsciente. Ao
mesmo tempo que a diferença é o móvel das transições, ela
nunca é realizada como tal pelo inconsciente.Ali
onde se presentifica, é só a consciência. O que muda no
inconsciente da castração é que nesse regime torna-se possível a
clivagem. Não há sinal do recalcado no comportamento consciente.
17
O que se faculta portanto na castração e no Saber, é o ego como
como sujeito da consciência,
o sistema de percepção e comportamento sensório-motor dotados
de significado, porém aquilo “de que” o sujeito é consciente
instaura-se porém pragmaticamente, como lugar seu na sociedade,
filho de seu pai e mãe,
não se subsumindo à intencionalidade como restrição semântica
dos atos de sentido, ao
contrário de Husserl. O
lugar social lacaniano está condicionado pela origem na família,
mas num sentido de crescente
ampliação da margem de liberdade do sujeito como horizonte da
civilização.
18
Em Marcuse, o Eros pré-genital é que assume o situamento desse
horizonte, na medida em que deva transitar pela crítica da distopia
repressiva, presentificada na problemática política e ética da
decadência capitalista. O
horizonte da civilização encarna uma dialática fatalmente
auto-destrutiva, na proposição de Marcuse, que se mostraria
entretanto consequente com os princípios freudianos eles
mesmos. Pois,
tratando-se da concepção da subjetividade clivada entre o ego, o
superego e o id, a posição de id e ego atende
à lógica da contrariedade entre a libido e o eu. Mas
sozinho o ego apenas lutaria, para preservar-se a si mesmo, contra os
impulsos dissipativos da paixão irrefreada pelo outro. Freud não
oferece uma explicação da vida ética baseada num ajuste consciente
de conveniências, um cálculo consciente à base do princípio de
“do ut des”, consoante o qual o sujeito cede a outrem para que
outrem ceda ao sujeito mesmo, compensando-se mutuamente, porém
cessando o vínculo da
obrigação mútua se a
reciprocidade falhar. Ele
considera o dever-ser como a prioris
diretivos em nossas mentes, que nos ligam uns aos outros por laços
de obrigação moral desde um princípio autogênico do que vale para
cada um em si mesmo, e há um duplo internalizado em nós que exige
de nós a obrigação, o que na psicanálise se designa superego.
19
A princípio a explicação
do superego é algo bastante lógico. Na relação com os pais, com
ênfase na figura paterna, para Freud e a maioria dos intérpretes,
desenvolve-se a internalização das regras que eles impõem à
criança, assim como a forma
da autoridade para além dos conteúdos das regras. A criança não
começou por perceber que a ordem lhe era dada porque favorecia a ela
mesma, e sim apenas que era uma coação implicando a necessidade de
compreender o significado
e empreender a ação exigida
para fazer cessar a demanda coercitiva imediata. Ela internalizou em
seguida a ordem como forma pura da lei. A gênese inconsciente é
portanto de algo determinado como o imperativo categórico kantiano.
20
A internalização da ordem não foi feita pela criança, porém,
apenas em função da forma pura, como num manual de instruções, e
sim como o correlato do poder supremo do pai, que nesse interime
stava sendo o objeto da problemática infantil ligada à sua figura
até
à atribuição do papel ou do nome de pai, tremendamente importante
para a construção pragmática das capacidades subjetivas por
definir a posição da família na sociedade e a origem mesma da
criança.
21
Ora, o que se forma assim é um ideal do ego, que se excinde na
constituição de um superego exigente da perfeição que o satisfaz
como a presença do pai idealizado, quando esse Ideal do Eu se
converte num Eu Ideal, a compenetração da ordem modelar num
correlato que já não está numa figura predeterminada, mas naquilo
que faz as vezes de escolha própria quanto ao que é perfeito na
ação.
22
Porém essa lógica plausível na posição do superego se inflete
quando a explicação psicanalítica enriquece o conceito do superego
pela necessidade de combiná-la com a intuição da originareidade
dos instintos agressivos. Pois
o veículo do poder superegóico sobre as ações do ego,
fiscalizando-as e julgando-as, reprovando e exigindo sempre algo
melhor, é a agressividade contra o ego. Não há veículo de
agressividade que exceda as
exigências
do superego contra
o que ele vota à condição de errado, mau ou imperfeito. Se há aí
uma fonte do sentimento de justiça, não sepode contudo limitá-lo
às fronteiras do bem e do mal conscientemente calculadas, mas o
cálculo mesmo teria que suspeitar de algum caráter em nóis
insaciável, que não se contenta com o possível. Mais uma vez isso
é útil, pois a vigilância contra a opressão dever ser constante e
não cessar apenas porque um caso qualquer foi resolvido, porém
o
superego é ele mesmo opressivo, não se satisfaz com o correto e
exige o poderoso, o fascinante, o excessivo.
23
Assim se o superego obtem o controle total sobre a sociedade, não
restará satisfeito consigo mesmo e vice-versa. Marcuse considerou
que essa não seria uma situação em que, todavia, os poderes
superegoicos em nós estão numa correlação de forças com o id, os
impulsos puramente passionais dissipativos, e o ego ele mesmo. Mas
sim que o superego é a força destrutiva, tendo o ego como o alvo
mais à mão e constante. Se todo o drama íntimo
das três personas psíquicas, ego, id e superego, é redimensionado
na história social, explicando-a como trajetória às instituições
civilizadas desde a suposta como tal horda primitiva sem lei ou
animista, como
na infância da criança civilizada houve a trajetória da maturação
do ego para tornar-se a figura da autoconsciência normal, supõe
Marcuse
dever-se concluir que há um constitutivo auto-destrutivo na própria
sociedade.
24
Ao
argumentar desse modo, Marcuse contradiz sua asserção anterior de
que o complexo de Édipo dissipa-se naturalmente com o crescimento da
criança. Concorda agora (p. 64) que o complexo edipiano é
“conquista duradoura” , na
qual a personalidade egológica estruturou os dois papeis dos seus
alters, o id e o superego, num equilíbrio recíproco. O superego
atua pois em defesa doi ego contra “os impulsos irrealistas do id”.
Mas lembra que o superego o faz, conforme a teoria psicanalítica
mais complexa, tirando parte dos instintod agressivos do id para
utilizá-lo contra a interioridade da pessoa, de modo que ela tenha
que ceder à moralidade e dever antes que sucumbir ao puro princípio
do prazer. Neste
ponto, entretanto, Marcuse abstrai o perigo do princípio puro do
prazer. O inconsciente não distingue fantasia de realidade, e se
houvesse apenas o id, a pessoa estaria exposta a alucinações nas
quais atuaria destrutivamente contra si, em meio a alguma projeção
de estar fazendo algo bem outro, assim comot ambém de modo mais
prosaico a criança é atraída pela tomada
elétrica onde não hesita em colocar o dedinho, etc. Marcuse
pensa, ao invés, que o superego é a agressividade parcialmente
desviada do reservatório do id, para fragmentar a personalidade com
algo internamente voltado
contra si: A consciência como agente do dever surge “impregnada do
instinto de morte; o imperativo categórico que o superego impõe
continua sendo um instinto autodestrutivo enquanto constroi a
existência social da personalidade”.
25
Ora,
naquilo que propõe como a possibilidade da sublimação
não-repressiva, Marcuse utiliza-se não apenas dos insights
episódicos do próprio Freud que antes examinamos, mas também de
criações mitológicas e referências culturais que personificam o
que a seu ver é o arquétipo individual dessa realização. São as
figuras de Narciso e Orfeu. (9)
Marcuse considera assim que a destinação funesta dessas figuras no
mito, como realizações de “relações libidinais que transformam
o indivíduo e seu meio”, são testemunhos fiéis do caráter
indesejável de uam transoformação puramente individual, em vez de
sócio-histórica: “mesmo
que a sublimação não proceda contra os instintos, mas como sua
afirmação, deve ser um processo supra-individual num terreno
comum”, do contrário, como “fenômeno isolado e individual, a
reativação da libido narcísica não é geradora de cultura, mas
neurótica”. (p. 183) Essa opinião a meu ver algo contraditória,
é extrapolada conforme
Marcuse,
do conceito de Roheim a propósito da diferença entre neurose e
sublimação tal que o primeiro isola e a segunda une. Porém o que
está sempre sendo afirmado é a neurose como o mesmíssimo
acontecimento psíquico decorrendo quer num sujeito dito patológico
na sociedade civilizada, numa
criança de certa idade, e numa sociedade primitiva classificada em
certo estágio evlutivo. A categoria comum é o estágio. Um
neurótico teria se fixado num estágio da formação infantil,
assim como a sociedade tribal ou sub-desenvolvida nesse mesmo estado
redimensionado ao nível suposto evolutivo social.
26
Mas o pressuposto é inversamente, que o material de informação
antropológico define os esquemas primários da formação infantil.
Freud afirma assim que são esquemas individualmente reutilizados,
mesmo pela criança, numa situação em que os recursos atuais não
bastariam. Naturalmente esse presusposto é apenas um meio para
estabelecer a natureza da psique, mas ao mesmo tempo é a prova da
teoria psicanalítica da cultura. Não se trata em meu argumento de
ignorar que seria impróprio considerar neurótico o primitivo e a
criança, mas sim colocar a correlação em questão, por ser este
modo de raciocínio manifestamente contraditório entre a semelhança
e a diferença, senãod e todo para a associação do estágio
infantil e neurose do adulto, praa o que seria o estabelecimento da
filogênese
ignorando, primeiro, a variação da cultura como fenômeno legítimo
e não conforme a circunstância evolutiva, e, segundo, que toda a
informação possível nesse campo é relativa a um estado provisório
da observação da ciência “ocidental”. Tudo
isso já especifiquei antes, aqui sendo contudo oportuno a
reiteração, para enfatizar que as culturas não estão numa
defasagem temporalizadora ao mesmo tempo que circusntanciakl relativa
ao normal e presente. Por sua vez, presente ao mesmo tempo histórico
e a-histórico, de alguma trajetória normal e de todas as
trajetórias possíveis. Conforme
a categoria de oni-histórico, do próprio Althusser
em seu artigo sobre “Aparelhos Ideológicos de Estado',
para
o conceito de modo de produção em Marx, uma trajetória normal
(“capitalismo”) permite
classificar todas as outras contrariamente
a si.
Althusser não percebe a contradição, pelo contrário, considera
estar na posse de todo saber possível sobre a ideologia.
27
Sem
contradição, a associação de neurose e fixação infantil só
poderia valer como caso de uma cultura. Para as demais, a associação
dependeria de se compreender todo alcance do sentido de ser adulto na
sociedade considerada. Não ignoramos que essa objeção já foi
feita, especialmente entre os que Marcuse designou revisionistas.
Assim o Édipo não seria universal. A meu ver, antes da decisão
sobre o Édipo, seria preciso que houvesse tematização da própria
cultura em que a psicanálise, está sendo feita. Isto é, o
questionamento epistemológico dos conceitos psicanalíticos enquanto
constituídos de certo horizonte de inteligibilidade. O
“ocidente” tem sido tratado como um horizonte de
inteligibilidade em si, porém um questionamento mínimo apenas
mostraria que não é de modo algum uno ou homogêneo, e se for
redarguível que o questionamento mesmo fornece o parâmetro dessa
unidade, isto seria uma falácia circular. Pois o que se está
expressando é que algo foi posto de fora, a uniade não se enuncia
como o universal senão pela exclusão do que está antes, e ao mesmo
tempo uma anterioridade coexistente, que é o mesmo mas não procedeu
do mesmo modo sua história psicossocial evolutiva, sem que saibamos
o porque dessa diferença. Não obstante, é ela “a” diferença
mesma.
28
Na posição de Marcuse, há
portanto conservada a ambiguidade, mas explorada ao máximo n um
contesto da história das ciências em que os conhecimentos
antropológicos mesmos já estavam apresentando conteúdos não
condizentes com a justaposiçaõ de fases formativas do indivíduo
infantil, assim como resultantes da interpretação psicanalítica
dos primeiros informes. Marcuse
ainda não registra, piis, o que na antropologia atual conhecemos
como as descobertasd contrastantes á acomodação vinda do século
XIX, conserada válida até a transição ao século XXI. Também
podemos notar que na linguística houve mudanças que afetariam a
interpretação estruturalista. Lacan lida apenas com a mudança da
linguística da palavra para a da frase, mas desconhece a linguística
do texto, que
relativizaria algo da primazia do “um”, como o determinismo do
“significante”.
29
Na acomodação pretérita, sempre julga-se apernas pelo critério
da ausência ou presença da economia objetiva., como se viabilizada
pela maturação da ciência objetiva no que seria em princípio a
pioneira sociedade pós-ideológica ou ocidente moderno.
Comparativamente a esse telos da maior riqueza e complexidade de
relações, haveriam dois outros tipos observáveis de sociedade.
Aquele tipo que é rico, porém não livre quanto à ciência, assim
como tampouco no plano político, com a organizaçãod erazoável
complexidade sendo porém baseada num poder imperial e ritos
despóticos; e aquele singularmente pobre onde a liberdade seria
irrestrita mas traduzindo assim a precariedade do meio de mero
ajuntamento tribal a partir do estado de “bando”, isto é, não a
lei consciente dos direitos individuais, mas apenas ausência de leis
estabilizadas, como naqueles estados infantis mais primitivos onde
não há organização do ego contra a supremacia do id, nem existe
ainda o superego.
30
Nas teorias políticas que definem o capitalismo, não obstante suas
diferenças internas, o esquema é axial. Assim já um consenso de
que o despotismo é repulsivo à consci^ncia moderna e democrática,
porém foi necessário à coalescência da lei na autoconsciência do
homem. O descarte das
semióticas do poder autoritário implica certa semelhança entre o
imediatismo da
cultura primitiva e a objetividade da lei civilizada, mas supondo-se
que na primeira não havia possibilidade da estabilização
justamente porque a imediatez não garantia sempre somente a
objetividade.
31
Já estipulamos mudanças na concepção antropológica, como a
interpretação da democracia do Sumer entre outros fatores de
ruptura. Seria o momento de nos conscientizar
de
que as sociedades despóticas já não são sobreponíveis a uma fase
da infância onde teria sido marcada a memória repressivo-normativa,
conforme a assunção de Freud válida
no pós-estruturalismo. Pois elas não são o transporte da ausência
de Estado até a civilização ocidental científica-industrial ou
modernidade, onde se estaria processando a liquidação dos últimos
vestígios da memória despótica como gênese “estatal” da
autoconsciência pós-”estatal” - para
um conceito genético, porém errôneo, de Estado.
32
Um modo de ver como há contradição na dicotomia de neurose e
sublimação comunitária, enunciada por Roheim e utilizada por
Marcuse, é que ela deixa em suspenso a posição de criadores de
valores, que não o fazem porém diretamente visando a sociedade.
Considerando
a conexão estrita que Marcuse estabelece entre a sublimação
não-repressiva, como hipótese do potencial inconsciente libidinal,
e a classificação antropológico das sociedades pré-civilizadas,
seria necessário entender bem como ele entende a estas. Mais
à frente voltaremos a esse tópico, examinando pormenorizadamente a
sua utilização do que designa os heróis culturais, Orfeu e
Narciso, e
a sua interpretação do Totem e Tabu freudiano.
Por ora, observamos que na
sua concepção das sociedade primitivas, deveríamos encontrar a
estimativa sobre a construção inconsciente da oposição de matéria
e espírito, como – supomos – de natureza e cultura. Marcuse de
fato parece ter canalizado a essa temática antropológica-social
o
que nas interpretações da psicanálise freudiana se acentuou como
tendência a centralizar na consecução de um tipo de razão
contra-opositiva,
o funcionamento mental.
33
Em
Marcuse, a oposição de natureza e cultura, como podemos tratar a
sua temática de espiritual e material, vem ao plano da fundação
discursiva do inconsciente, na medida em que nele o que está
ocorrendo é a decisão sobre o destino dos corpos. Se poderão eles
se
tornar veículos da satisfação pessoal na hipótes da sublimação
não repressiva, ou se, inversamente, o organismo só puder existir
na sociedade como “instrumento de trabalho alienado”. Conforme
ele, “se a separação antagônica da parte física da parte
espiritual do organismo é, em si mesma, o resultado histórico da
repressão, a superação desse antagonismo franquearia a esfera
espiritual ao impulso” da obtenção “do prazer das zonas do
corpo”. (p.
183) O raciocínio é estritamente psicanalítico, pois não se trata
de que “Eros é Ágape”, mas sim que “Ágape é Eros” -
lembrando que Eros é o deus grego do amor sensual, enquanto Ágape é
o termo grego que designa a comunhão das almas, o amor espiritual, e
“Philia” designa o amor na acepção da amizade.
E
de fato, Marcuse insiste nesse trecho sobre essa filiação, mas a
amplia para abranger não somente Freud, e sim também vários
extratos possíveis da tradição, como desde Platão a Margareth
Mead e Barbara Lantos, como referência do que seriam os vestígios
da possível “oposição filosófica contra o princípio do
desempenho”. (p. 181)
34
O percurso desse argumento deságua na revisão do conceito de
trabalho, como o que teria que voltar a relacionar-se ao princípio
de prazer. A separação dessas duas instâncias seriam portanto o
reflexo da oposição de natureza e cultura, como do material e
espiritual, desdobrada
agora porém como entre os termos opostos quanto à finalidade da
ação do trabalho, se o desempenho exigido na tarefa ou a satisfação
usufruída no agir.
35
Na convergência do jogo ao trabalho conforme o pólo gratificante,
Marcuse recusa, no entanto, ou que se trate de um resultado
previamente administrado, como em Fourier (p. 184). Ou conceituável
como correlato de um instinto específico que se realizaria apenas
pela excelência do resultado da ação, sendo esta a hipótese
citada de Hendrick (p. 190).
36
Nessa
consideração eu tendo a concordar que gratificação pessoal e
administração externa são algo incompatíveis, porém o problema
está na quarta oposição assim subjacente, a saber, entre
“trabalho” (possivelmente gratificante) e “labuta” (esforço
físico), conforme
os termos marcusianos do trabalho não-alienado e alienado
(p.
185). Quanto à hipótese de um “instinto de proficiente mestria”
atribuída a Hendrick por Marcuse, é
energia do trabalho, não libidinal, e que seria impulso a controlar
ou alterar o meio circundante pelo “uso hábil de técnicas
perceptuais, intelectuais e motoras”, sentido como impulso a
desempenhar eficientemente o trabalho. Creio
que realmente dependeria de se ter feito a cisão do que é instinto
e do que é sublimado, mas o que Marcuse antepõe é que ele
ratificaria o princípio do desempenho. Essa é a parte frágil do
argumento, a meu ver, pois o “prazer” do “trabalho bem feito”,
que
alguams pessoas boas sentem não me parece “um indício de
repressão” por ser conversível ao cumprimento da ordem, conforme
o sentimento de “estar bem ocupado, no lugar certo”, e
“contribuir com sua parcela para o funcionamento da engrenagem”.
(p. 191) O
exemplo de Marcuse é de pessoas de profissões subalternas que se
contentam na consecução de suas tarefas com esmero. A meu ver, a
interpretação alienou o fato que supõe explicar, pois ou bem o
prazer é relativo à ordem social, ou bem à “minha” ação
quando efetuei certa atividade que
considerei particularmente bem realizada.
A
engrenagem realmente
não precisa de “excelência”.
36
' Seria
também algo forçado supor que essa espécie de prazer de um
alfaiate por ter feito um lindo terno seria também passível de ser
sentido por um operário que apernas devia depositar objetos
indiferentes na esteira da produção em série. Aqui há não
somente uma, mas duas concepções de
“trabalho”. E
na verdade, o fenômeno histórico que tem afetado as teorias
conhecidas do capitalismo como sociedade clivada entre burguesia e
proletariado, é justamente que o “proletariado” se pluralizou
demasiado, entre áreas de ocupação e
interesse muito
variadas – por
exemplo, entre escalões subalterno e administrativo, ou entre mão
de obra
do terceiro e do primeiro mundos, e,
tamnbém, entre setores da produção, o agrícola, o industrial ou o
comercial e de serviços, este que abrange o trabalho intelectual e
as profissões liberais ( engenharia, medicina, advocacia, etc.).
A
integração do proletariado na esfera de consumação e ideologia
burguesas já foi documentada no primeiro mundo, como por exemplo por
Lucien Goldman, na altura dos anos cinquenta. Já
a perpetuação da
produção
de tipo artesanal, ante-capitalista,
comprova-se, não obstante não ser previsto pelas teorias do
capitalismo como “modernização”.
37
O problema se torna gigantesco mesmo do ponto de gita social, desde
que o questionamento da necessidade de administração na esfera do
trabalho público se
estende à consideração do “desempenho em linhas de montagem, em
escritórios e lojas”, como
não associável a “necessidades instintivas”, sendo, ao
contrário o mesmo que “glorificar a desumanisação como prazer”.
Assim a tarefa, o
desempenho, a administração e a labuta tornam-se não apenas
valores questionáveis – como deviam ser por uma apreciação não
utópica da existência. Mas positivamente seccionados, como
componentes reais do trabalho socialmente efetivo, de modo que
compreender
as constantes deste, seus problemas e possibilidades de mudança, não
seria possível meramente descartando-os. Ao contrário, o trabalho
se tornaria em Marcuse, como objeto da “finalidade erótica” que
“gera seus próprios meios de realização”, restrito aos
seguintes objetivos: “a abolição do
esforço (labuta),
o aperfeiçõamento do meio, a
superação da doença e da
decrepitude,
a criação do luxo”. Atividades que fluem do princípio do prazer
como trabalho engajado em sua própria meta. (p. 185)
Sem
dúvida, tudo isso é invejável, mas será a meta da indústria do
luxo equiparável a de se eliminar os incômodos derivados da
velhice? – na hipótese de se interpretar desse modo algo tão
vago como a supressão da decrepitude conforme a expressão
marcusiana. Seria a estimulação do luxo sempre compatível com o
objetivo de vencer
as
doenças? E
não estaria em contradição esse aspecto do argumento, com o que
Marcuse considera antes, a saber, que “a ordem não-repressiva só
é possível se os instintos sexuais puderem, em virtude de sua
própria dinâmica, e por condições existenciais e sociais
mudadas, gerar relações eróticas duradouras entre indivíduos
maduros”? (p 175) Seria
evitável que tornar insuportável o baixo nível qualitativo dos
serviços, mercadorias e atendimento, viesse a configurar um meio de
contestação, como se verifica localmente a mentalidade nessas
décadas de governo “trabalhista”?
38
Mesmo
antes de examinar a proposta de revolução cultural implícita em
Eros e Civilização, torna-se
oportuno notar que nela a beleza é um imperativo central, mas como
um componente platônico, de modo que não se teria meios de
considerar
o fato que Gombrich na História da Arte assinalou, de que para uma
criança o rosto de sua avó é mais atrativo e belo do que o de uma
jovem desconhecida. Aqui
Marcuse incorre expressamente no que eu designaria a falácia de
Miller, referenciando o escritor americano. Pois na sua prosa de
estilo autobiográfico, Henry Miller faz
da Broduay
e da bela
jovem
potencialmente promíscua os referenciais da liberação relativa ao
mundo da obrigação conjugal, paternal,
e sobretudo
do trabalho, sem notar jamais que todo a engrenagem que ele
assim condena respira unicamente pela mesma Broduay e miragem da
beleza ao alcance de todos. Eis o mundo do business de mídia e da
propaganda, administrados pelos interesses do imperialismo
internacional, mas
Miller jamais suspeita disso, sequer como uma possibilidade. A
falácia de Miller poderia ser de fato expressa pela proposição
ingênua de Marcuse: “A beleza da mulher e a felicidade que ela
prometa são fatais ao mundo de trabalho da civilização”. (p.
148) Acostumados como estamos ao novo despotismo da beleza na
dominação info-midiática da globalização, a
qual poderia configurar uma neoanalidade, já não poderíamos
acreditar nisso, pois
constatamos o contrário. E
o essencial da crítica na perspectiva histórica estaria em
registrarmos aqui o fato de que a automação e a flexibilização
dos imperativos da labuta, junto
com o aumento da longevidade,
vieram atualmente a um resultado contrário ao previsto pela
correlação de repressão da beleza e trabalho alienado. Seguiu-se a
pedofilia generalizada nos meios de comunicação e o sancionamento
do trabalho infantil, com reserva de mercado para a mão de obra mais
jovem, do
que se seguem fascismos de todo tipo.
39
Mas uma visada no platonismo já bastaria para demonstrar como a
contestação à
democracia pelo aristocratismo radical estava ancorado no ideal da
beleza jovem,
do arrebatamento erótico assim limitado, o que em Platão contudo é
um tema homossexual, devido ao costume grego do amor do homem
mais velho
pelo rapaz. Era expressamente um ideal de valorização da virilidade
como apanágio de
espírito
e virtude – como consta no Fedro e no Banquete, especificamente. A
beleza platônica é portanto a que corresponde apenas
a
um padrão étnico-aristocrático espartano,
que
se considera porém “ideal” e “universal”, contrariamente
ao gosto pessoal e à variação fenotípica na heterogeneidade
étnica e na miscigenação. Não
ignoramos que essa correspondência não é apenas o caso do
platonismo na origem grega, mas comum a toda veleidade etnocêntrica
e/ou aristocrática. Mas
a concepção platônica
do
universal como o necessário meio do acesso ao Saber igualmente
universal é um
derivado filosófico que só compreendemos como apropriação
aristocrática, simpatizante da
iletrada
Sparta, daquilo que começou como filosofia até
a sofística nas
regiões letradas e legalistas da Grécia como a Jônia e Atenas, ou
seja,
a crítica do saber indemonstrado
que estava subjacente à pretensão de castas auto-designadas de
origem divina personificarem a lei pública.
39
O acúmulo das interrogações suscitadas pela reflexão de Marcuse a
propósito do trabalho e alienação, mostra
contudo
que, por um lado, aquilo que ele induz a princípio é
uma expectativa de todo contrária a tal queda da
teoria
no platonismo e na ingenuidade consumista. Seria antes a superação
do preconceito etário e
do fetichismo
da beleza jovem, quanto
ao amor, assim como quanto à realização pessoal. Algo
que seria necessário à psicanálise como um ramo da ciência que,
quanto a isso, é de fato no mínimo ambíguo. Por
outro lado, mostra que Marcuse não falha na intenção instigadora
do seu texto à reflexão futura. É
interessante que ele tenha destacado a citação de Crisholm, onde a
conversão repressiva do “trabalho em virtude” na
modernidade é o contrário do trabalho como a “maldição que
sempre
foi
proclamada
pelos nossos remotos ancestrais” (192).
A
consagração do trabalho como virtude na modernidade é julgada por
Crisholm como
uma “necessidade
neurótica”, e
a atividade em si tende à compulsão, não vinculada a necessidades
reais.
Convergindo,
aparentemente, na corrente distópica da evolução psicossocial
limitada pela repressão e que deveria ser saneada pela ciência. Mas
na
antropologia conhecemos hoje os
Mânus,
das Ilhas do Almirantado, cuja tribo
se organiza pelo princípio do trabalho e da poupança, que de nada
se afasta daquele que Weber atribuiu exclusivamente aos protestantes
capitalistas da modernidade europeia (ver nota 2).
Em
contraste, os Guarani da América do Sul suspendem
por
vezes
toda atividade devido
a ritos escatológicos a que se entregam, supondo que a inação e as
mezinhas adequadas os habitilitarão a elevar-se,
como puros espíritos, à terra isenta de mal, o céu.
Serão
assim
os
“ancestrais” os culpados,
ou, inversamente, os ingênuos inocentes? O
argumento reza que o trabalho pelo trabalho é compulsão, o que
certamente está de acordo com os
conhecimentos
psicanalíticos
de desvios neuróticos à excessiva meticulosidade ou perfeccionismo.
Porém
daí
não se segue por qualquer nexo evidenciável, o corolário de que o
trabalho que se realiza por necessidade é
somente aquele que pode e
deve
reduzir-se a comportamento lúdico, ao jogo e prazer, Ora,
o argumento implica assim que as atividades que se realizam com
prazer
não são necessariamente as de
prazer,
estas as não compulsivas. A inundação do mercado por produtos de
divertimento não são não- compulsivas, ao contrário, assim como
vimos que a satisfação pelo trabalho bem realizado é compulsivo.
Como poderá haver decisão, na produção econômica, sobre o que
está ou não regido apenas
pelo “princípio do prazer”? E como se coadunará esse
predomínio, com o fato da necessidade, que evidentemente não se
limita sempre
ao
que gostaríamos de estar fazendo?
39
' Creio
sem dúvida haver uma relação do prazer com a atividade adaptativa
e transformadora do meio a que designamos trabalho, que se expressa
numa sensação não de domínio sobre o meio, mas de bem
estar, de harmonia com ele, e
de segurança devido aos resultados satisfatórios oriundos da
execução das tarefas necessárias à vida,
mas essa
sensação
seria
apenas uma base, relativa
aos casos ótimos de atividades que satisfazem a necessidade mas não
são penosas. A base fornece alento e orientação para os casos
contrários, quando a atividade necessária
é
penosa. É por isso que o trabalho, como em Hegel, é a meu ver a
ligação ao princípio de realidade definido como emancipatório, o
contrário da subjugação da pessoa à
fantasia da onipotência. A
recusa desse princípio do trabalho emancipatório não é apenas um
corolário da erotização total exigida em Marcuse, mas vem sendo o
denominador do pós-estruturalismo nietzschiano – ver a propósito,
o artigo de Derrida sobre Battaile em A Escritura e a Diferença.
Ora, aí se assume sem peias que se trata de converter o homem, de um
escravo da natureza e da paixão, emancipado pela sua própria
atividade
descobridora, em senhor por natureza – só não se diz “senhor”
sobre quem. O senhorio nietzschiano é defendido com unhas e dentes
porém como uma noção destituída de sentido até que se esclareça
“quem” é o escravo para que se estabeleça o pólo oposto como
do “senhor”. A inconsequência é pois a mesma do argumento do
trabalho restrito ao prazer. Assim como este omite o modo de ser da
necessidade, tanto como omite a deslimitação da finalidade se
aquilo de que se trata é prazer – para fantasiar que sendo prazer,
será politicamente
justo,
não
destrutivo, e
ecologicamente correto – aquele omite que só há senhor se há
servo, para fantasiar que o conceito de “senhor” implica apenas
“ser livre”. Pareceria
pois mais do que uma piada lembrar que esse argumento soa como aquele
protesto
de honestidade
do
assim
designado “submundo” marginal:
“nunca matei ninguém quando não estava com raiva”.
40
Em
todo caso, vemos assim que a crítica necessária ao mundo do
trabalho como veio a ser, um meio de opressão, é incontornável ao
problema político da atualidade, e independente dos
questionamentos que se seguem dos modos pelos quais o problema é
colocado, o viés psicanalítico de sua enunciação conduz a uma
problematização do próprio princípio de realidade. Ao
ver de Marcuse é o futuro da civilização que erotizará as
relações humanas, afetando
assim a preponderância do princípio da realidade na economia
psíquica, porque
a civilização aportou num
a priori
existencial do lazer, deixando de ser o trabalho o diferencial
identitário. Este
é um fato que julgo inegável, expresso nas noções que se tornaram
correntes na segunda metade do século XX, como “sociedade de
consumação” e “sociedade do lazer”. Porém
isso não implica que as atividades subalternas e ligadas à “labuta”
cessaram de todo. Pelo contrário, multiplicou-se a necessidade de
“peões de obra” como se designa, oriundo do êxodo rural das
regiões miseráveis do país, cuja exploração pelo mercado de
mega-investimento estatal é
impressionante – assim na construção da ponte Rio-Niterói,
quando
tantos pobres “peões” caíam nas águas, da altura imensa,
irrecuperavelmente. Mega-investimentos
como este multiplicaram-se nos governos neoliberais, não tendo sido
apanágio apenas da ditadura.
Faxineiros,
lixeiros, e tantas formas de subemprego proliferam.
41
O
que se coaduna com os conceitos de sociedade de consumação ou de
lazer, não foi a
supressão
da labuta, mas a transformação do mercado em veículo
de produtos visando – justamente – ao prazer. Assim
o status está agora ligado não à virtude, mas ao consumo
prazeiroso. Um problema na teoria do trabalho, que visa a
superação dos aspectos repressivos, é que secciona assim produção
e consumação. Marcuse
critica a profusão dos bens desnecessários que veio a se tornar
marca registrada do mercado do pós-guerra. Assim designado, porém
de fato apenas a elevação do que ele designou “Estado
beligerante”, cujo alvo eram as nações do terceiro mundo,
consideradas
por ele atrasadas, conforme o critério da
produção tecnológica.
42
Marcuse
abrange
a questão do terceiro mundo em seu prefácio à edição de 1966, de
Eros e Civilização. Ele
utiliza para a modernidade como desenvolvimento das nações
avançadas (p.
27),
o que hoje designamos primeiro mundo, o mesmo critério que Ives
Lacoste em “Os países sub-desenvolvidos”, a
saber,
a satisfação das necessidades em número sempre maior, e de um
número sempre crescente de pessoas. Os
países sub-desenvolvidos seriam
definidos pela presença de fatores que impedem essa satisfação
crescente. Um
destes fatores, talvez o preponderante segundo Lacoste, é o
trabalho infantil, útil na lavoura familiar, de modo que o critério
do desenvolvimento
como satisfação de necessidades,
a longevidade, seria dependente do
decréscimo da natalidade que ao uso do trabalho infantil é
útil.Por
isso o
critério de longevidade demarca exclusivamente a população do
primeiro mundo,
restando
preponderância numérica de jovens com baixa esperança de vida, nos
países de economia agrícola.
43
Porém
o que observamos
desde então, foi que a proliferação do mercado do
mundo desenvolvido visando o prazer, com a integração
tecno-midiática que totaliza a linguagem de veiculação de
qualquer produto atualmente, resultou no contrário da supressão
de barreiras entre as gerações. Aquilo que para uma geração
parece inútil, para aqueles que crescem utilizando parece
necessário, mas logo surge novas “inutilidades” que são porém
novas “necessidades” para outros, e assim indefinidamente. Os
produtos são lançados visando essa defasagem de consumidores, ao
contrário de o serem visando a população
como um todo. As disfunções óbvias dos lançamentos de aparelhos
digitais , além
do mais
sempre
mais sabotáveis por intrusão criminosa, se
dirigem no sentido de manter a fantasia
de
que cada geração de pessoas é função da geração de aparelhos,
só ela tendo capacidade para entender o ridículo “funcionamento”,
de
modo que a inutilidade funcional se mascara como a necessidade
técnica, isto é, objetiva. O
trabalho infantil tornou-se assim generalizado pelo próprio mercado
comercial tecno-midiaticamente integrado. Não obstante ser
sempre mais voltado ao prazer, não conduziu à
integração de gerações, dado
que
Margareth Mead exemplificou como
resultando da
harmonia
dos Arapexes com o seu meio de atividades, pelo
contrário .
(10)
Inverteu,
como vimos, o critério da modernidade como supressão do trabalho
infantil.
44
Ao
mesmo tempo que conservando
o critério da
satisfação de necessidades para o mundo desenvolvido,
Marcuse destoa
de Lacoste quanto à caracterização do sub-desenvolvimento. Elas
substituem agora o proletariado dos países centrais como o agente
possível da revolução marxista, ou ao menos o fazem
potencialmente. O que venho considerando a redefinição do
capitalismo como imperialismo, porém, não chega a ocorrer na
argumentação marcusiana que
entretanto internacinalizou expressa
e decisivamente
a luta de classes.
Mas
assim, carecendo
da ressignificação do processo mesmo capitalístico na história,
para
conservar a oposição à modernidade como estado instintivo do
homem, o
argumento parece
algo contraditório.
45
Por um lado, Marcuse assevera que “a vantagem histórica das
nações mais novas, do seu atraso técnico, talvez seja a de
poderem saltar o estágio da sociedade afluente. Os povos atrasados,
por sua pobreza e fraqueza, poderão
ser forçadas à renunciar ao uso agressivo e supérfluo da ciência
e da tecnologia, para manterem a engrenagem produtiva
à
la mesure de l'homme,
sob o seu controle, para satisfação e desenvolvimento das
necessidades vitais, tanto individuais como coletivas”. (p.
18) Mas também aduz que, à diferença “das revoluções
anteriores, que acarretaram um desenvolvimento mais amplo e mais
racional das forças produtivas, revolução significaria hoje a
inversão dessa tendência: eliminação do superdesenvolvimento e de
sua racionalidade repressiva”, o
que equivaleria para as nações sub-desenvolvidas revolucionárias,
a “oportunidade”
para a “abolição das condições em que a labuta
do homem perpetua, como um poder autopropulsor, a sua subordinação
à engrenagem produtiva, e, com ela, às formas obsoletas de luta
pela existência”. Mas se tal obsolescência fica algo obscura na
correlação do
potencial revolucionário aos países não desenvolvidos,
onde
portanto a luta pela existência teria perpetuado suas antigas formas
ao
contrário de superá-las por outras,
o
corolário é que “a
rejeição da produtividade afluente, longe de constituir um
compromisso com a
pureza, a simplicidade e a 'natureza', poderia ser um indício (e
uma arma) de um estágio superior do desenvolvilmento humano, baseado
nas realizações da sociedade tecnológica”.
45
Ao
mesmo tempo que a ausência de tecnologia é o meio revolucionário
que resta como evitação dela acontecer, ela mesma, no estágio em
que está, seria o trampolim da revolução como mudança na direção
do seu poder. O
que se segue não permite desfazer a contradição, apenas
reitera a centralidade
dos Instintos como o objetivo revolucionário.
Com
a
interrupção da produção de bens desnecessários e destrutivos -
“um estágio que significaria o fim do capitalismo...” -
ocorreria que “as mutilações” do corpo e da mente infligidas
pela produção desnecessária seriam eliminadas e “a configuração
do meio, a transformação da natureza, podem se impulsionados mais
pelos Instintos Vitais do que reprimidos, e a agressão estaria
sujeita às suas exigências”.
46
Os países sub-desenvolvidos que estavam enfrentando guerras contra o
colonialismo do primeiro mundo, como o Vietnã, ao ver de Marcuse, ao
invés de estarem politicamente organizados conforme
a própria integração colonial implicaria em
termos de integração cultural,
expressavam apenas uma revolta instintiva, uma
“aversão biológica” contra o domínio técnico, e esse seria o
significado da guerrilha em plena modernidade.
47
O
significado dos Instintos Vitais enquanto atuantes contrariamente à
dominação
técnica, é portanto definido como biológico. Tanto exemplificável
pelos povos atrasados em sua “oportunidade histórica” de
protagonizarem a revolução, como pelos movimentos de juventude
contrários à dominação, “a nova boemia, os hippies e hipsters,
os andarilhos da paz...” (p. 20),
Eles
teriam
vindo para ficar, inamovíveis e permanentes pois impulsionados por
“necessidade biológica”, os Instintos Vitais ou Eros. (p. 23).
48
Também
se segue uma contradição nesse
conceito de necessidade, ligada à ambiguidade do progresso. Vemos
que Marcuse considera positivamente o saber técnico em termos de
avanço, opositivamente à condição de “atraso.” Porém,
conforme
ele, “o
superdesenvolvimento técnico e científico fica desmentido quando
os bombardeiros equipados de radar, os produtos químicos e as
'forças especiais' da sociedade afluente desencadeiam-se sobre os
mais pobres da Terra, seus barracos, hospitais e campos de arroz”
- aqui a conotação ao Sudeste Asiático e
Vietnã
é nítida - “Os
'acidentes' revelam a substância: rasgam o véu tecnológico só o
qual se ocultavam os verdadeiros poderes”.
(p.
17)
49
Ao
invés da modernidade como
fim das carências e
era
da realização, ela
resulta um
estado
de guerra que ameaça a totalidade do ser.
Ora, a revolução não seria um retorno da condição de “atraso”,
mas uma reorientação do “progresso”. Essa reorientação é a
que inclui os
instintos eróticos vitais, na concepção mesma do que o progresso
deva ser, Mas, novamente, não se tratam
dos intintos que pre-existem, não obstante o rótulo de
“biológicos”. Assim Marcuse se
expressa:
“'Sexualidade polimórfica' foi a expressão que usei para
indicar que a nova direção de progresso dependeria completamente da
oportunidade de ativar necessidades orgânicas,
biológicas, que se encontram reprimidas ou suspensas, isto é, fazer
do corpo humano um instrumento de prazer e não de labuta. A velha
fórmula, o desenvolvimento das necessidades e faculdades
predominantes, pareceu-me inadequada; a emergência de novas
necessidades e faculdades, qualitativamente diferentes, pareceu-me
ser o pré-requisito e o conteúdo da libertação”. (p. 15 e seg.)
50
Mas
o essencial ao argumento de
Marcuse, é
a oposição, como observamos, do pré-genital como ante-repressivo,
ao mundo originado da sublimação repressiva e alienadora. Aqui
nosso questionamento poderia se ampliar para a psicanálise como um
todo. Pois segundo as suas premissas, o
“perverso polimorfo” da infância é (tautologicamente)
pan-sexuado,
mas só realiza efetivamente o sexo quando deixa de o ser, e ascede
ao “genital”. A negação do genital não resulta na liberdade
sexual, ao contrário, é a negação do sexo (adulto/função
do orgasmo/penetração).
Esse
deve ter sido o motivo que conduziu Klein e Lacan a colocar o Édipo
e o Simbólico, que são o telos
da trajetória formativa inconsciente para
Freud,
porém já em seu início, como
o fator que a orienta. Agora,
em revanche, Marcuse considera que é o estado pós-civilizacional –
inversamente ao pré-civilizado – que desenvolverá os componentes
da auto-assunção necessários ao domínio erótico da vida dos
seres humanos.
51
Critica, pois, Marcuse a Reich, por seu “primitivismo arrasador”,
que
apenas liberaria a satisfação do impulso carnal. Ora, como Marcuse
considera, são as lutas da memória contra o tempo (p. 200 e segs.),
como
veículo de esquecimento,
que preservam
Eros de suas próprias tendências destrutivas. Assim a experiência
se converte, de baldada na finitude, em História, e esta seria o
lugar da transformação do mundo, como da vicissitude em
providência. O fim poderia ser quase
infinitamente
postergado,
e também, quando inevitável, isento
de dor e
de pesar pelo que se anula se
o que fica de positivo está resguardado e o que se viveu foi
plenitude. (p. 204).
52
Esa mensagem otimista
se
distancia do passado na exata proporção em que o recupera. Sintoma
inextrincável de um discurso que avança até a ruptura da oposição
de instinto e inteligência, mas não renuncia ao que a baliza na
formulação do imperativo repressivo psicanalítico, antes, almeja
encontrar aí os meios da ultrapassagem. O “indivíduo” em todo
caso, continua sendo conceituado como a “mais perfeita e louvada
realização da era moderna.” (p. 205)
Aquilo,
pois, que não houve sempre.
Capítulo
4
1
A questão que se coloca a partir da contradição que vimos até
aqui nuclear
ao conceito revolucionário de Marcuse, entre o passado e o futuro
como articulações em
confronto com um presente que não se define tanto no tempo como no
espaço geopolítico, a modernidade-ocidental como
locus do progresso técno-civilizacional, é a formação da
subjetividade. Não é nesta que se joga a possibilidade de
erotização da personalidade total? Mas
se o horizonte do erotismo se encontra conceituado apenas na
dependência de um estado pré-genital, portanto
pré-subjetivo, o
que devemos considerar é que motivo impulsionaria, conforme Marcuse,
a fragmentação repressiva. Ele
considera para
descarte as objeções de que a repressão dos instintos primária
tem no inconsciente uma função de defesa, e assim conforme
propostas que a fizeram recuar para estágios bem arcaicos da
formação da personalidade, de
modo que o id poderia estar saturado da função superegoica desde o
relacionamento primordial com a mãe. Uma hipótese que ele atribui,
na terminologia do “superid”, a Odier, mas que poderíamos também
relacionar às
considerações de Melanie Klein. Ela desfaz assim
a
oscilação freudiana entre o superego ser oriundo das relações com
a mãe ou o pai, considerando
que se devia à ignorância de Freud a propósito. Como Marcuse liga,
ao que parece, o superego com a socialização,
de modo que os valores repressivos são os civilizados, para
as considerações do que impediria a erotização total
e favoreceria, ao invés, a cisão fragmentadora como necessária à
vida, Marcuse considera a aliança do tempo-esquecimento com a
repressão primária, assim como também a própria natureza dos
impulsos destrutivos.
2
Assim,
na progressão da sua crítica refutadora do caráter determinista
desses fatores, torna-se importante a ênfase no determinismo social
da formação psíquica. Ao contrário do otimismo professado até
aí, Marcuse avança na sua refutação, agora, do revisionismo
culturalista, protestando contra a tentativa de situar a sociedade
atual como entidade complexa, em mudança. Ela continuaria como Freud
supunha, conforme a um “conceito estático”, que resume toda
sociedade
à
“inumanidde básica e comum a todas elas, assim como os controles
repressivos que perpetuam, na própria estrutura dos instintos, a
dominação do homem pelo homem”. (p. 219) Assim a psicanálise só
pode ser parcialmente terapêutica, se ela não se propaga a uma
concepção revolucionária da sociedade.
3
Fica
assim, ao menos provisoriamente, problemática a concepção do
sub-desenvolvido e
do pré-civilizado como
potencial revolucionário em Marcuse, assim como o conceito do
pré-genital. Sua crítica a W.
Reich,
este
que
orientou a clínica para a liberação do orgasmo, mostra que Marcuse
não pensa o pré-genital como realização
carnal dos impulsos sexuais perversos, e sua concepção unitária
das sociedades já
não isenta o não-civilizado. Se
até aqui poderia parecer que a orientação é ao passado, mesmo
para uma retomada revolucionária, a
consideração própria de Marcuse conduz desde
aí a
uma libertação do Eros enquanto impulso ao futuro melhor por ser
rumo à superação dos conflitos, relativamente à satisfação
sexual restrita
ao querer de dois indivíduos mutuamente atraídos. Se a sociedade
pode ser estaticamente visada como oponene da sexualidade assim
restrita, ainda que em termos proostos de necessidad eisso fosse
falacioso devido ao caráter procriativo da sexualidade, em todo caso
Marcuse faz observar que a sociedade mesma é o construído pelo
Eros. Mas de algum modo a sexualidade não-procriadora teria sido o
pivô da repressão contra ela, enquanto meio da retroação da
sociedade a um aparelho dominador.
4
Há
aí uma tensão argumentativa óbvia, uma ausência de necessidade
permeando toda demonstração doq ue implica um determinismo social.
Mas as previsões futuristas de Marcuse apoiam-se na eviência do
afrouxamento da pressão do dever (p. 123 e segs.)
A meu ver, repetindo, trata-se da defasagem da teoria dos instintos
na própria psicanálise freudiana como o que deveria ser
antropologicamente demonstrável, sendo
ela parte do que podemos designar epistemologia política,
ocidentalista.
O que Marcuse estima
é que estamos num
limiar de ultrapassagem do princípio de realidade, assim aquilo em
que Eros e Civilização se engaja é uma revisão da teoria dos
instintos que pudesse fazer a “Transformação da Sexualidade em
Eros”, conforme o título de um capítulo do livro. Seria preciso
então, acatar a premissa contraditória de que a transformação em
curso nunca foi antes realizada por qualquer “sociedade formalmente
instituída”, e de que, ao
mesmo tempo, “a reativação dos desejos e atitudes pré-históricos
e infantis não significa necessariamente regressão: pode muito bem
ser o oposto: a proximidade de uma felicidade que sempre foi a
promessa de um futuro melhor”. (p. 178) A
contradição não é apenas de fundo antropológico social. Atinge a
dimensão do pré-genital como delilmitação
da infância. Pois, ao criticar a democracia, Marcuse expressa que a
liberdade pífia de um povo meramente “manipulado e organizado”
tem, ainda assim, um alto preço: “a ignorância e a impotência, a
heteronomia introjetada...”. (p. 14) Ora, “heteronomia” é o
conceito piagetiano da moral infantil, que se projeta
pelo princípio de autoridade transcendente a ela mesma enquanto
exclusivamente meio de ajuste das partes ao objetivo da coexistência.
A moral do adulto, cuja realização maior é constitucional, é
autônoma nesse sentido exclusivo.
5
Sem dúvida, sentimos ser necessário a sociedade e o mercado não
opressivos e coerentes com a liberdade democrática, que ao contrário
dos fascismos, é regime constitucional que garante total respeito à
privacidade e direitos humanos. Porém Marcuse critica
a democracia como mero disfarce pelo qual houve acomodação dos
súditos conformistas de
um poder destrutivo que se esconde por trás do véu tecnológico. A
antropologia atual, contudo, já não se presta a instrumento para
desvirtuar a atuação consequente ao objetivo democrático, naquilo
em que seu enunciado mesmo não se coaduna com a corrupção de si. A
atuação em prol do objetivo constitucional dos direitos civis e
privacidade é um princípio definido por si mesmo. O
problema é atrelar a questão da atribuição de direitos a algo
além do princípio existencial
de
igualdade, sem que se possa atribuir superioridade ontológica a
qualquer pessoa ou classe. Atrelar a atribuição de direitos à
problemática da delimitação do ser originário do homem de modo
que a heterogeneidade do privado se torna abstraída pela atribuição,
não se define, mas se imbrica, ao mesmo tempo que numa posição
unilateral, formalmente instituída, a um nada além de um campo de
discussão onde inexiste critério de decisão ulterior àquilo mesmo
que está em questão. O que enfatizo
conforme minha premissa “geoegológica”, é porém que não se
trata nessa imbricação, do antigo “universal” metafísico
travestido de algum modo, como
paralogia do Homem, assim disfarçando-se em “ciências humanas”
ou antropologia. Pois
o ser originário que se tenta definir, nunca é o ser de quem define
por estar a definição mesma posta como o critério da decalagem do
progresso relativamente à origem.
6
A crítica geoegológica do discurso neurótico ocidentalista não
nega necessariamente as propriedades inerentes ao campo de discussão
humanístico-científico. Ao contrário de Foucault, que destituía
de sentido a pesquisa sociológica porém, na ignorância do que ela
revelou em termos operacionais a propósito da criminologia,
desdobrindo-se não haver qualquer pre-requisito de classe, condição
ou status que favoreça a prática do crime. Na ignorância dessa
informação, Foucault supunha estar defendendo o pobre quando
afirmava que sua honestidade, quando constatável, é apenas obra
educativa – mas para efeitos óbvios de domesticação manipuladora
– da burguesia puritana. Nem ignora a “geoegologia” como
ciência crítica do discurso geo-ego-lógico imperialista, que o
campo das humanities não se esgota numa rede dilemática à base de
tudo ou nada. Mas sim se constitui como veículo plural de captação
das luzes fugazes da história, aqueles eventos que atravessam o
mundo dos costumes e solicitações cambiantes, conforme as épocas,
mas são o que há de decisivo em cada uma delas, e cuja tradução
por uma consciência reflexiva não consta em nada com instrumentos
de comunicação da própria ideologia em que estão entretecidos e
em que foram constituídos. São eventos em um nível sub-atômico,
por assim expressar, relativamente ao que seriam aos elementos de que
se constitui a estrada real da ciência da História, como fatos
disruptores que limitam as épocas, uma relativamente a outras, ainda
que os elementos germ efeitos através delas, precipitando assim a
mudança. Uma “história da vida cotidiana” seria ainda
insuficiente. Poderia captar o que e como se faz, porém não
expressaria o que e como se o sente, na ampla gama de possibiliddes
com que se depara cada um.
7
Marcuse expressa bem aquilo que depositamos naquela prateleira do
indubitável, forçando os parâmetros limitados na área da
sociologia do trabalho, relacionando-o ao plano da crítica no ponto
de junção à expressão das mentalidades. Ele induz a questionar
para que o trabalho está orientado, uma vez que localiza com
exatidão o que seria um logro, ao invés de adequada resposta, fosse
ela qual fosse: “Dizer que a tarefa tem de ser desempenhada porque
é uma 'tarefa' constitui, verdadeiramente, o cúmulo da
alienação...”, e, quanto ao que é alienação, define-se
imediatamente como “a perda total da liberdade” tanto
“instintiva” ou “intelectual”. (p. 192) Nesse fato da
alienação, o que ocorre, ao ver de Marcuse, é que a repressão
instintual se converteu em natureza, nem mesmo como natureza num
sentido de hábidos adquiridos, ou “segunda”, mas a essência
mesmo. Aqui temos o que designei uma efetiva mentalidade operante,
permenando um nível particular e cotidiano do mundo histórico.
8
Como já mencionamos, seria uma intençaõ louvável, desde que se
estivesse convendido de que na mentalidade que consideramos
degenerada por ser lesiva ao potencial da felicidade subjetiva, não
há apenas motivos transitórios e circunstanciais, e sim móveis de
profunda articulação na trama das possibilidades abertas ao devir
humano, pesquisar a sua origem e modus operandi. Porém aqui já se
esboça algo da dificuldade da tarefa, independente da enormidade do
referencial como nada menos que todo o conjunto
histórico-antropológico por conhecer. Com efeito, parece um
raciocínio estranho, correlato a uma tarefa exorbitante, partir de
semelhante estipulação. Ela nos convida a identificar duas coisas
aparentemente bem opostas, a degeneração possível e a feliz
natureza subjetiva, como ambos casos que se libram da atribuição da
contingência. Nem mesmo, nesse caso, pode-se facilmente resolver a
aoporia na base opositivade doença e saúde. Na História não
existe a partição do bem e do mau subsumível à do normal e do
patológico.
9
O fascismo que combatemos como a coisificação do alienado, cobre um
campo muito vasto de efeitos e horizontes sociológicos. De um modo
bastante desagradável podemos constatar que as premissas
tradicionalistas do fascismo histórico estavam muito de acordo com o
anti-progressismo das correntes humanísticas do culturalismo em
geral, ainda que o propósito político fosse tão oposto que todas
essas correntes foram perseguidas e duramente reprimidas no
totalitarismo nazi-fascista. Nem se restringe o fascismo político ao
oficializado pelo nome nos países totalitários da última guerra
mundial, mas é o mesmo que se atribui aos impérios conhecidos,
bárbaros e despóticos, e à dominação ideológico-ditatorial da
religião na Idade Média – que porém foi o horizonte ideal das
pregações humanísticas do culturalismo. (1) Já reportei que hoje
não subtrairíamos algumas formas tribais da atribuição desse tipo
de domínio, não obstante se considerar, como no Anti-Édipo e
idealizações semelhantes, que o “selvagem” não pratica
dominação “bárbara” (despótica). Aqui seria importante notar
a contradição de Deleuze-Guattari, pois se sua nomenclatura
morganiana se votava a inverter a concepção progressista, já vimos
que nem o faz ao considerar o capitalismo o avesso do potencial
criativo inconsciente originário, nem de fato mantem a premissa de
que os três socius são independentes um do outro em vez de
sucessivamente alinhados. É de se acrescentar que praticam ainda a
terminologia da “regressão”para designar qualquer veleidade de
primitivismo. (2)
10
Uma tendência assinalável das teorias do evolucionismo
psicossocial, após a deflexão humanista dos seus aspectos
radicalizados na nascente, o positivistmo, tem sido a resistência à
assimilação das descobertas empíricas da pós-modernidade
antropológico-social, que considero como o cenário em que a
dicotomia de primitivo e civilizado se tornou impraticável. (3) Essa
oposição ao equacionamento tem sido conspícua onde mais seria
necessário, nas grandes linhas teóricas como o marxismo e o
estruturalismo, de modo que n estas se tem mantido a acusação do
fascismo a todo estado de inconsciência da sua crítica moderna
ocidental, ao contrário do que as descobertas induzem. Marcuse
procede conforme a regra, mesmo que numa certa margem de
relativização. O que designamos fascismo, e ele trata em termos de
sublimação represiva ou seu correlao histórico-social, por um lado
transcende a discriminação de regimes assinaláveis, atingindo o
plano das mentalidades. Este atravessa veleidades hipócritas de
estado de perfeição tecidos porém apenas da interdição do prazer
à multidão dos explorados, e a resrição do parazer da maioria
favorecida apenas à ostentação da fruição de aparelhos de
domínio e reprodução da ordem impessoalmente instituída contra a
liberdade dos corpos. Por outro lado, não é algo estranho ao que a
psicanálise localizou na própria constituição da mente humana,
sendo este o mérito que Marcuse atribui ao pensamento freudiano,
porém não sendo possível desviar a evidência do desprazer que
isso nos causa, e a vitória do liberalismo político na guerra o
comprova, seja lá o quão canhestro consegue se estabelecer até
agora. A mente humana é capaz do mal e do bem, da dominação do
homem pelo homem e de sua crítica libertadora. A normalidade não se
restringe a nenhum dos lados, e o problema não é tanto como
apreender a irredutibilidade deles numa só e mesma natureza
psíquica. Mas sim que essa irredutibilidade mesma não é isenta de
critérios, e quanto a estes, é o que está em jobo na própria
oposição dos lados em conflito.
11
Já vimos que Marcuse acerta o alvo com precisão quanto ao que
podemos considerar, estando na conformação não-nazi-fascista das
perspectivas, o necessário em termos de mudança da mentalidade na
realidade sociológica do trabalho, mas resta a questão do trabalho
em si. (4) Ao praticar a subsunção conceitual da “coisificação”
do alienado aos termos da tarefa por si mesma, e do desempenho,
contrastados aos da auto-sublimação erotizante e do prazer, muitop
arece permanecer impensável. Ao invés de descer à discriminação
dos casos, creio ser mais oportuno generalizar à crítica dos
princípios. Quando se confunde a satisfação pela tarefa bem feita,
com a alienação da tarefa imposta (5), temos a impressão de que o
que se fez foi apenas fantasiar um mundo de ocupações não
factuais, e está muuito bem que assim exercitamos a mente criativa,
mas de fato ela não precisaria exercer-se alienanto a efetividade
como se o trabalho existente não fosse aquele que há conforme
circunstâncias que não são apenas dependentes da decisão humana.
Amentalidade pode explciar porque se limita a ser somente isso ou
porque, sendo o que é, atribui-se de determinado modo, como
subalterno ou não, como dever-ser dependente – justamente – do
que seja, etc.
12
Como vemos, estas restrições não são diversas doq ue a prórpia
crítica marcusiana induz, e creio que nisso mais relacionada a
Sartre do que expressamente referencia. O pensamento de Marcuse, em
se cerne, visa algo bem mais abrangente do que se deixa confinar numa
coincidência com o que já disse aquele negador frontal da
existência do inconsciente. Assim, quando se trata deste cerne, do
que visa especificamente a crítica de Marcuse voltada ao próprio
inconsciente da repressão, é que encontramos a dividuldade em sua
enunciação cristalina.
13
A questão pode ser endereçada ao que o encaminhamento parece
posicionar como seu pars construens, a saber, o atingimento de
uma dimensção ulterior àquela que a seu ver pode se estabelecer
como o limite do empreendimento freudiano.
14
O próprio Freud teria deixado o limite bem definido, ao intitular
sua obra tardia, na ruptura para com a fórmula inicial, de “Para
além do princípio do prazer”. O limite freudiano estaria no
conceito de instinto de morte, descoberta própria da psicanálise,
assim como formulação derradeira do percurso freudiano. Já vimos
que essa concepção é um biologismo por um lado, assim devedor de
concepções de época, por outro. Contudo, um dos modos de explicar
a perpetuação da segunda teoria de Freud mesmo posteriormente à
ultrapassagem da biologia dos inícios do século passado, a meu ver,
é ser ou parecer uma formulação existencialmente consequente,
enquanto aparente união de forma e conteúdo, na medida em que para
os seres vivos na generalidade não há algo ulterior ao limite da
morte, e se os seres humanos são conscientes, o limite é para eles
o fundo do pensável.
15
Marcuse, porém, estabelece o seu pensamento na ultrapassagem do
próprio limite, como apenas aparente ou provisório, quando intitula
o segundo tomo de Eros e Civilização “Para além do princípio de
realidade”. A evidência que Marcuse considera mais própria
transcende assim o império dos fatos, encaminha-se ao terreno dos
sentidos. É de se acrescentar aqui que haveria certa contradição
numa exigência do pensamento a partir de um limite factual, quando
se trata do pensamento inconsciente, porque no inconsciente assume-se
que não há diferença entre o real e a fantasia, inclusive para
objetivos de um sentimento de satisfação de um impulso ou desejo.
Já o essencial nas considerações freudianas, conforme a visão de
Marcuses, é a cisão dos princípios, e secundariamente a dos
instintos. O plano cisório dos princípios incide na oposição
entre princípios de prazer e de realidade. O plano dos instintos, na
formulação tardia de Freud, é clivado pela oposição de Thanatos
a Eros, como instintos de morte e de vida, respectivamente
destrutivos ou disruptivos como nas conjunções adversativas (ou,
ou) e construtivos ou conectivos (como na conjunção e, e). A
correlação dos dois planos é o que Marcuse mais enfatiza como o
problema crucial, ao mesmo tempo que a gênese mesma, da civilização.
16
Porém quando se trata do mais básico dos comprometimentos da teoria
freudiana com o seu próprio limite, Marcuse visa a ultrapasagem
desconstruindo a oposição que considera fundamental ao discurso da
limitação pelos fatos. Ou seja, a parte inicial do percurso que
conceitua o “Para além do princípio do prazer”, é preenchida
por uma discussão do princípio de prazer como a noção freudiana
que se nega assim que se põe. Uma vez que o prazer só é dominante
na mente como orientação do ego total, “nos mais profundos e mais
'arcaicos' processos inconscientes, princípio de realidade que é o
contrário dele muito cedo torna-se operante: “O processo está
agora cindido...”. E pode-se afirmar que o princípio de prezer,
enquanto o que é incompatível e oposto ao princípio de realidade,
aparece a este como “divisão e mutilação da mente”, embora
“determinando fatalmente o seu desenvolvimento”.
17
O propósito de Marcuse neste trecho é mostrar que ao construir a
oposição dos princípios do prazer e da realidade, na qual a mente
regida pelo segundo não pode conhecer o primeiro, e qu anto a este
naõ integra uma totalidade reunindo-se a ele, mas , inversamente, se
atuada opera como curto-circuito na continuidade autoconsciente da
vida mental, Freud não deixou de construir uma espécie d eponte que
atenuasse o caráter de choque do przer descontínuo porém
subsistindo nas camasas profundas do fluxo de consciência contínuo.
É o que ele designou devaneio (“divagação”), como ato daquele
modo de atividade a que designou fantasia, e que emergiu como parte
do ego do prazer que logrou manter-se livre do princípio de
realidade.
18
Marcuse observa que se o princípio de realidade funciona como
operador repressivo do parzer, Freud atenuou o conflito ao reinvestir
a este último em seus direitos, conferindo à imaginação de um
valor autônomo, autêntico. Porém o que Marcuse considera
necessário é bem mais do que isso. Incursionando ele ao exame da
oposição prazer/realidade em seus méritos próprios, mostra que
ela depende de uma ideologia do trabalho internalizada, criando uma
circularidade notável. O trabalho é introjetado na teoria conforme
a ideologia de sua necessidade factual de labuta desprazeirosa, mas
assim a capacidade do desprazer para atender à necessidade, enquanto
o princípio de realidade é o a priori da necessidade ela mesma. O
trabalho em si é o correlato do que os homens querem que ele seja, e
o que eles querem que ele seja é o trabalho em si conforem ao
desprazer correlato do rpincípio de realidade enquanto tal, como
contrário do parzer.
19
Assim Marcuse desfaz o argumento da necessidade, e restringe o modo
de ser à mentalidade, o que era a seu ver a intenção original de
Freud, porém desviada pela ideologia do trabalho/necessidade. Ora, o
problema nessa refutação não é que ela não seja formalmente
válida quanto à correlação especificada de trabalho/necessidade e
desprazer/realidade. Mas sim que ela é estabelecida em conformidade
a um fundo teórico relacionado apenas ao princíipio de prazer, mas
dirige-se necessariamente na perspectiva da realidade. O movimento
para além da oposição não é satisfeito, se ele estanca na
reutilização do princípio do prazer pensável apenas conforme ao
que é incompatível ao próprio ato de puramente argumentar sobre
como as coisas são ou podem ser, independente de se gostamos disso
ou não. Marcuse coloca do seguinte modo o princípio da realidade
em questão: “assim condicionada [pelo princípio da realidade],
essa parte da mente obtem o monopólio da interpretação, alteração
e manipulação da realidade, do controle da recordação e do
esquecimento, até da definição do que é realidade e como deve ser
utilizada ou alterada. A outra parte do aparelho mental continua
livre do controle do princípio da realidade – pelo preço de
tornar-se impotente, inconsequente e irrealista”.
21
Como também aduz: “Enquanto o ego era anteriormente guiado e
conduzido pela totalidade de sua energia mental, agora é orientado
unicamente por aquela parte que se conforma ao princípio da
realidade. Somente esta parte pode fixar os objetivos, normas e
valores do ego; como razão, torna-se o repositório único do
julgamento, verdade e racionalidade; decide o que é útil e inútil,
bom e mau”. (p. 129 e segs.)
22
Aqui Marcuse inclui o que Aristóteles designava as partes da alma
organizada em faculdades vegetativas, sensitivas e apetitvas. Isto é,
as funções orgânicas em sua performance regular, na ordenação da
“razão”, não apenas restrita ao “intelecto”, mas imperante
na natureza enquanto apenas um epifenômeno da mente de Deus, assim
descontando o que dele se afasta como a contingência devida à
posição longínqua da terra num sistema planetário por Deus
envolvido. O princípio da realidade não apenas suplanta o prazer
como existência controladora das funções próprias do ego, mas
também a fantasia, oposta ao real na condição inverídica,
sem função.
23
Como vemos, o argumento em prol do prazer não chega a ultrapassar o
estabelecimento do que é a realidade – da fantasia e do prazer. A
concepção freudiana do ego do prazer como sendo povoado por
instintos sexuados porém pré-genitais não chega a ser transposta.
Se o que o argumento considera é, de um modo bastante realista, que
estamos num contexto histórico em que aquilo que designa orientação
pelo desempenho, expressando não uma necessidade factual mas apenas
os “intereses da dominação” (p. 143), chegou a um ponto de
auto-destrutividade iminente, devido ao próprio acúmulo da
complexidade oriundo da intensificação sem pausa do esforço.
24
Se Marcuse convém, correta e lucidamente, que “a libertação de
Eros poderia criar novas e duradouras relações de trabalho” (p.
143), e, sobretudo, que “essa mudança impor-se-ia mesmo como um
pré-requisito da manutenção e continuidade do progresso” (p.
145), cortando a ameaça iminente dos holocaustos nuclear, político
e ecológico, contudo mantem a libertação almejada na dependência
do que seja previamente estabelecido como “prazer”. Conforme
Marcuse, aquilo que se subtrai não apenas ao princípio de realidade
sem que mais propriamente o faça com relação à modelação
genital do sexo: “... Se o trabalho for acompanhado por uma
reativação do erotismo polimórfico pré-genital, tenderá a se
tornar gratificador em si mesmo, sem perder o seu conteúdo de
trabalho”. (p. 187)
25
Tornar à discussão da oposição gratificador/trabalho, seria
apenas o que se poderia esperar frente a objeção de que “trabalho”
como atividade concatenada de produção de algo ou de um estado de
coisas com uma certa destinação de ser proveitoso, é incompatível
com o correlato dos instintos pré-genitais, uma vez que eles ou são
definidos por Freud como veículos de paixões relativas ao que o
sexo é nas respectivas fases pré-genitais – atos orais, como
mamar, sugar ou morder, ligados à alimentação; atos anais, como
excreção, sujar ou bater (forçar imperativamente), ligados à
educação sanitária; ou são apenas o correlato lógico de uma
oposição questionável ao princípio de realidade.
26
Aqui seria oportuno todavia demarcar a originalidade de Marcuse.
Podemos fazê-lo num contraste a Deleuze-Guattari, que por sua teoria
da variação contínua da subjetivação (“voluptas”/
heceidade), ficam presos na concepção freudiana da esquizofrenia,
quando a intenção deles é libertar a esquizofrenia dessa
concepção. Conforme Freud, a esquizofrenia é pré-objetal. O
discurso esquizofrênico é como uma algaravia porque compõe-se
apenas de palavras, sem construção referencial-factual. Assim a
variação contínua de Deleuze-Guattari não podem a meu ver figurar
como opção política tendente à causa das assim designadas
minorias.
27
Na variação contínua não há relação objetiva com a situação
política da qual somente pode se tratar em cada caso. Pois
quanto a esta situação, não poderia ser considerada fora das
relações de conflito na qual se define um problema político,
relações que são assim histórico-sociais, envolvendo a parte
contrária como o discurso da discriminação, etc. Fora da
objetividade relacional, portanto, não há o “quid” de que se
faria o “devir”, ou esse “quid” deriva do discurso da
discriminação com seus correlatos idealistas que podem, conforme um
dos destinos possíveis dos instintos, converter-se no contrário de
si, assim num endeusamento do desprezado que o projeta como
identidade ideal.
28
O limite do argumento guattari-deleuziano podemos constatar na
contradição pela qual tornar-se mulher, criança, árabe ou negro,
etc., seria para que eles mesmos variassem quanto ao que são, se
tornassem outros.
29
Porém tal variação devirenesca se faria – se fosse possível –
irredutivelmente ao devir que já existe, posto que não há a
unidade nesses casos além do situado que é plural, as
personalidades bem independentes umas das outras, que porventura
encontram-se relacionadas a certa situação histórico-social
objetiva. Pelo contrário, a variação seria do próprio ideal de um
“ser” comum, único, inerente apenas à idealizada qualificação
(criança, mulher, etc.).
30
Marcuse, inversamente, ataca a questão objetiva. Se a opressão é
generalizável, ela é o que se verifica a partir da universalização
do mercado de trabalho, faz-se pelo trabalho como dever coercitivo,
condição que se torna visível, quando a coerção se expande
planetariamente, como algo independente da mera necessidade objetiva.
A mola da compulsão do dever pelo dever revela-se, quando a
visibilidade sobrepuja a racionalização como falsa generalização
da necessidade, como neurose de uma sobre-repressão primária sobre
a liberdade dos corpos em sua capacidade de usufruir do prazer.
31
Até aqui a tese é muitíssimo interessante, enderençando-se
validamente como uma explicação hipotética da neurose
capitalística. Uma explicação que ao mesmo tempo preencheria a
lacuna e faria ver que ela existe, a saber, a lacuna de qualquer
inteligibilidade sobre o fato de que o capitalismo emergiu para
tornar-se o maior problema que a humanidade jamais enfrentou no seu
percurso de sobrevivência como espécie até hoje, justamente quando
pôde enunciar a sua emancipação pela via da legalidade, da
opressão escravizante que a dividia contra si mesma, entre classes
estamentais dominadas e dominantes porém ambas alienadas da sua
posição autárquica subjetiva.
32
Porém nesse ponto a explicação de Marcuse converge a uma crítica
da civilização como totalidade. Ela decisivamente engaja-se na
evitação de definir o campo problemático, o capitalismo, como o
terrreno exclusivamente econômico no qual objetivamente se
desenvolve o conflito do trabalho e os projetos da produção de
assim designados bens de consumo e tecnológico. O capitalismo se
torna esvaziado como noção objetiva, comprometendo a delimitação
inicial da problemática. A totalidade social, na qual o capitalismo
submerge conceitualmente, é por sua vez ela mesma defletida na
subjetividade como referencial de um percurso formativo das
capacidades de atuação coerentes com a própria natureza do seu
ser. Conforme Marcuse: “A psicologia individual, portanto, é em
si mesma, psicologia Grupal, na medida em que o próprio
indivíduo ainda se encontra em identidade arcaica com a espécie.
Essa herança arcaica anula a 'brecha entre Psicologia individual e
Psicologia da Massa'”. (p. 67)
33
Nesse ponto de junção, porém, de sujeito e sociedade, é que a
defasagem da perspectiva da totalidade se mostra do modo mais agudo.
Se a metapsicologia freudiana dos instintos é a base da anulação
da irredutibilidade de sujeito e sociedade, quanto à opressão pelo
trabalho nesse sentido de convertê-lo num instrumento de censura ao
prazer, ela seria psicanaliticamente associada não à fase genital
desenvolvida, mas a alguma fixação pré-genital ou a uma pressão
indevida do superego sobre o ego, comprovando não ter-se obtido um
equilíbrio satisfatório entre ambos como correlato de um bom
desenvolvimento genital. Se, pelo contrário, o que Marcuse concebe
é que a própria destinação genital da libido implicou
antropologicamente a formação da civilização como um núcleo
patogênico de canalização dos instintos de morte, a razão parece
ser que ele recusou tratar o capitalismo, esse núcleo personificado,
como uma neurose por si. Fiel ao princípio da totalidade, ele trata
o capitalismo como a realização conspícua, o colorário mesmo da
civilização.
1
Um aspecto desse problema da crítica marcusiana a Freud, é a
disjunção com que ela opera entre o particular e o universal. Ele
considera assim que “o estado original, regido pelo princípio do
prazer, era aquele em que não havia qualquer 'principium
individuationis” e “a vida do indivíduo era a vida do gênero”
(capítulo 7 de Eros e Civilização, sendo importante considerar
como um todo). Como já assinalei, este é o dogma fundacional da
psicologia contemporânea, desde inícios do século XX, a saber, que
o ego como auto-apreensão da pessoa individual só está formado aos
três anos de idade, e que as fases de formação até aí, seja como
for que uma teoria suponha conceituáveis, reproduzem a filogênese
como desenvolvimento psicossocial do primitivo até o civilizado.
Assim só o desenvolvido (moderno-ocidental) realmente atinge a
formação do ego. Havia antes desse estado, ao ver de Marcuse, “a
imagem da unidade imediata entre o universal e o particular”
naquele “passado sub-histórico” de que “a imaginação
preserva a 'memória'”, estritamente regido pelo “domínio do
princípio do prazer”. Apenas o princípio de realidade impôs a
cisão do particular ao gênero universal, criando a autoconsciência
do ego como ser individual, ao mesmo tempo idnependente mas tendo que
arcar consigo mesmo.
2
A crítica de Marcuse a Freud volta a sser de caráter formal. Se,
conforme Freud, o percurso da consciência desde o passado
pré-histórico do gênero, até a civilização, não pode
ser invertido, nãohá um estado ideal de natureza, por um lado. O
estado originário é clivado pelo civilizado pelo a priori mesmo da
sobrevivência da espécie. Mas, ao mesmo tempo, se assim é, então
uma natureza está sendo predicada como civilizada. Uma forma
histórica se torna a natureza. Contudo, se a consequência é a
possibilidade até aí não divisada, da realidade prazeirosa
assumida pelo homem como o que ele quer e pode, Marcuse a enuncia
como bem mais do que algo que a civilização impulsionou, ou o que
poderíamos projetar racionalmente, por exemplo como estamos a fazer
agora, pela crítica da ideologia da necessidade. Ao invés, a seu
ver, “tal mudança afetaria a própria estrutura da psique”, pois
alteraria o equilíbrio entre os dois princípios, erótico e
destrutivo, restaurando domínios censurados de gratificação, e
“pacificaria as tendências conservadoras dos instintos” (p.
145). O que Marcuse designa, por outros termos, “o livre
desenvolvimento das necessidades” subjetivas (p. 144), que a
produtividade mesma impulsionaria tão logo abolida a escravidão à
labuta, é algo impensável nas atuais condições da inteligência,
ainda que plenamente afirmável por si mesmo: “Uma nova experiência
básica de ser transformaria integralmente a existência humana”.
(p. 145) Poderíamos considerar que em Marcuse, uma vez que o
transcendental no pensamento está definido pelo modo de relação
com os instintos, sublimadora (repressiva) ou autossublimadora
(desreprimida), abstração feita da realidade, esta se torna assim,
de princípio que era em Freud, derivada, epifenomênica ou empírica.
3
Mas assim o que isso significaria já não se subsume à experiência
genuína do gênero. Aquilo que relaciona, na psicanálise em
geral, o modo de relação com os instintos e a relidade em nível de
princípio. É um outro gênero, um outro 'ser', o que em Marcuse é
exigido como a única “experiência” satisfatória ao objetivo de
superar a ameaça destrutiva protagonizada pela dominação, assim
como a própria dominação iníqua. Se há uma possibilidade de ser
livre, ela não é deste mundo. Mas o imperativo de um para-além,
sim. Seja como for que se necessite da crítica a Freud, não foi de
nenhuma outra proveniência que o imperativo se consubtanciou e
coalesceu. O fato da dominação não basta, o combate não
obtem apoio se restringir-se a uma reforma sensata das instituições,
ms também, como vimos, a reforma dos indivíduos – enquanto tais –
é igualmente neurótica e insatisfatória.
4
Na verdade o problema pode ser melhor estipulado se constrastamos com
a solução antípoda na via psicanalítica. Tanto a interpretação
da duplicidade ou clivagem da mente entre o Inconsciene e a
Consciência, como ver de Marcuse entre prazer e realidade, fazem o
trânsito para uma conclusão na ordem política e social por meio da
transposição do interpretado exatamente ao que é ao mesmo tempo a
natureza originária e sua intangibilidade ao presente estado de
coisas. Na interpretação orientada pela realidade, como pelo
trajeto contínuo da história, o mesmo conteúdo atribuído da
alienação é considerado o resíduo arcaico não suprassumido, o
sinal de que a maturidade está apenas parcialmente realizada para o
todo da humanidade. Na perspectiva de Marcurse ocorre o inverso, é a
trajetória mesma da natureza que encerra a distopia, e o que pode
mudar o diagnóstico de alguma fatal e determinada dialética da
civilização, torna-se de compreensão complexa porque ao mesmo
tempo que deve ser a alteração do equilíbrio original das pulsões,
é o resgate do estado originário delas.
5
A meu ver, esse contraste de vias de interpretação do Inconsciente
como percurso dos instintos à inteligência como meio do ser situado
no mundo, seria enriquecido se aprofundássemos o exame ao discurso
da oposição. Em todo caso, há uma cisão entre prazer originário
instintivo e realidade. Porém Marcuse opera a cisão de um modo que
aqui não pretendo discutir se é menos freudiano que o de Lacan, ou
o oposto, mas em todo caso, não sendo o mesmo. Pois, ao que me
parece, a “jouissance” ou “fruição” em Lacan é um conceito
que atravessa a oposição simples. “Jouir” é traduzido nesse
contexto por “desfrutar” mais do que “gozar”. O desfrutar
envolve o prazer e o gozo tanto como o desprazer e a náusea, é o
estado permanente do ser em seu mundo, o modo de relação receptiva
com ele, o que na antiga filosofia se designava a intuição. Contudo
a jouissance não se limita a uma relação intelectiva com o meio,
nem a uma dicotomia tal que se pudesse separar na intuição
originária, o sensível do inteligível. Ora, na jouissance, a
cisão dos princípios do prazer e da realidade não recobre
totalmente aquela entre estados pré-genital e genital, o que há é
mudança de qualidade de ambos conforme o estado de que se
trata.
6
Parece um modo paradoxal de expressar-se, porém sendo o que
acontece, afirmar que no estado genital ocorreu a interiorização
dos instintos que no pré-genital eram externalizados. Como em Lacan
o princípio da realidade, de Freud, foi substituído pela temática
generalizada do Outro, vemos que a interiorização não elimina o
“mais de gozar” como o segundo princípio da jouissance, mas o
transpõe a um plano de cálculo desta mesma. Já a suposição
marcusiana de que as tendências destrutivas se vão junto com o
princípio da realidade, tão logo seja o princípio reduzido à
quimera repressiva e o pré-genital seja mantido como o originário,
não tem base na própria teoria dos instintos, onde o destrutivo
Thanatos é tão originário quanto o construtivo Eros.
7
O estado originário das pulsões na concepção marcusiana, de modo
a resultar na cisão simples de prazer (pré-genital) e quimérica
realidade (genital) parece ter sido conceituado no interior de uma
oposição que na via lacaniana do inconsciente-linguagem se
pretendeu desconstruir, sem que ainda se tenha considerado a
consequência lógica de que resta transformar o próprio conceito.
O
que impede não poderia ser atribuído a alguma defasagem da
inteligência do autor, de modo nenhum. A razão é clara, o fato de
que o conceito do que permanece sob domínio do princípio do prazer
não é apenas o oposto negativo do que alcança a realidade
transubstanciada autopoiética, mas o substrato positivo da
informação antropológica, a clivagem unilateral, geoegológica, de
primitivo e civilizado, base de sustentação do que se atribui à
economia da organização libidinal infantil. Lacan não padece menos
desse impedimento
8
A noção de erotização em Marcuse seria o veículo de algo ao
mesmo tempo referenciado daquilo que se opõe à economia suposta
primitiva da libido, e sendo “o que” se deva erotizar, como
também o que em si, enquanto erótico, subjaz a essa economia. O
conteúdo do que ela organiza são os instintos, as necessidades
corporais, porém como sabemos, a teoria dos instintos não se limita
ao prazer. Na esfera do trabalho, a incompatibilidade do labor e
responsabilidade ao princípio do prazer foram equacionados na
crítica marcusiana apenas o labor.
9
Vimos que em Marcuse a erotização conceituada na crítica também
não podia ser o “prazer” em sentido corrente, da boa execução
da tarefa, como se não fossem as tarefas correlatos de satisfações,
não apenas de quem faz, ma também a quem elas se destinam. A
relação interpessoal inerente ao processo do trabalho não é
tematizada na crítica, e de fato nem mesmo pelo criticado, pois o
que Freud considera segundo o que destaca Marcuse é apenas a
restrição do trabalho como decorrendo em sua possibilidade de
performance, do princípio quimérico da Realidade, em Freud ao mesmo
tempo dependente e independente da organização instintiva.
10
Não há dúvida de que essa ambiguidade que Marcuse objeta a Freud é
patente. Vimos que Lacan também sentiu a necessidade de mudar a
teoria psicanalítica quanto ao princípio de realidade. Mas ao
interpor ao invés do princípio, o conceito de Outro como o
que desde a origem opera a clivagem na imanência dos instintos
mesmos, entre eles e seus objetos, implica que estes se tornem
pensáveis, complementarmente, como de um Sujeito. Precisamos
lembrar que toda alteridade com que a mente lida teve que ser antes
efetivada como correlato intuível por ela mesma enquanto pensante,
não havendo acesso direto a realidade qualquer. E efetivada como
Outro em relação a si mesma. Porém essa clivagem é o que se
elabora ao longo do que Freud e outros designam as fases sucessivas
da formação do inconsciente, até sua perfeita distinção – tão
perfeita que só no século XX, ao cabo de dezenas de séculos de
filosofia e ciência, se pôde descobrir que ela é, no fundo, falsa.
11
Em Lacan se tratam, em vez de fases, de funções independentes, não
obstante algo como que empurrar a um privilégio “genital”, esse
algo sendo justamente a interiorização que nos permite ser
“cientistas”, ou, no mínimo, pragmaticamente consequentes - as
aspas cabem conforme a falsidade perfeita da nossa oposição aos
objetos das ciências possíveis. Assim os estados diversos, o que
designei a exteriorização dos instintos pode ser compreendido a
partir daquela lembrança de que neles o que existe não é algo
puramente subjetivo, mas o amálgama do impulso e do seu objeto
exterior. Esse amálgama será a relação do saber, na
interiorização como realização do ego, o sujeito epistêmico. Mas
até aí, ele é a irreflexão que impede a posição do interesse
próprio, este que só é plenamente conceituado relacionalmente aos
alheios, e conforme aquela margem de distância que nos permite
avaliar a própria pertinência do impulso.
12
Creio que o pré-genital como estado em que essa avaliação não é
ainda possível, é exemplificável com o estado de impedimento de
alcançar a articulação das partes num regime, o que Lukacs definiu
em termos da ideologia burguesa como cegamento à autoconsciência
de si como classe. Autoconsciência o que destruiria as balelas da
livre iniciativa como mérito próprio na conquista do status
econômico.
13
Não significa que as pessoas não agiram conforme as regras, ou que
não importa o talento, mas sim que as regras não foram feitas pelas
pessoas, são inerentes a uma estrutura alijadora, de modo que elas
foram mais dominadas pelas regras alienantes do que dominantes num
meio de realização subjetiva. Mas elas foram dominadas “como se”
por seus impulsos eles mesmos. Aqui vemos como a desconstrução da
oposição simples de prazer e realidade é operativa, uma vez que
“seguir regras” e “ser dominado pelos impulsos” pareceria uma
antítese e a mais exemplar da mesma oposição. Contudo essa
aparência é a própria ideologia ativa.
14
Como vemos, um cotejo de Marcuse e Lacan revela que, não obstante o
contraste exemplar das vias, como “receitas” respectivas de
“prazer pré-genital autossublimado” e “mais- de-gozar genital
epistêmico”, eles tem o mais básico em comum, como a crítica do
princípio de realidade, a percepção de que o princípio de
realidade é o que está mudando, e a interconexão política
inerente à posição desa problemática. Porém Marcuse é mais
incisivo quanto ao significado do político, enquanto inerente às
relações do trabalho. Em Lacan, por outro lado, vemos a transição
histórica na questão do político, desde as relações do trabalho
na linha inaugurada por Marx, à problemática da realidade
redefinida como a do Saber (Outro), o que atravessou a oposição de
base econômica e superestrutura ideológica de um modo não restrito
ao que o culturalismo havia feito apenas invertendo a hierarquia de
modo que a cultura (“ideologia) se tornasse o determinante.
15
Nesse sentido, eu colocaria Lacan como o sucessor de Heidegger numa
linha de problematização que iniciou-se com Marx e Nietzsche.
Marcuse, porém, é quem permite expressar os motivos profundos dessa
linguistic turn na teoria do Inconsciente, e os motivos
eminentemente políticos subjacentes, quanto a isso sua critikultur é
indispensável e de certo modo, posterior à do próprio Lacan,
devido ao equacionamento da internacionalização, como vimos.
Porém a partir daqui, devemos examinar as aporias que decorrem da
organização geoegológica irrefletida do discurso da ciência
“ocidentalista”, assim como mesmo em Marcuse, a ciência do
trabalho e da organização instintual.
16
Como já ressaltei, não sendo possível desfazer a fantasia
neurótica geoegológica sem, por um lado, a junção coerente da
história e antropologia da “margem” ao intertexto de que se
constroem a história e antropologia “Geral”. Por outro lado,
também não sendo possível desfazê-la sem a independência real
dos contextos, ali onde, antes da “Conquista”, nunca foram
relacionados. Mas ambos os elementos que servem a ambos os
requisitos, a partir da informação em humanities, só estão à mão
bem recentemente, o que impulsionou à terminologia de uma era
histórica “pós-moderna”, onde tanto as junções e desjunções
necessárias estão em marcha, como, o que é a face proeminente da
Coisa, a crítica do discurso geoegológico, definindo a
“modernidade”. Como vemos, de modo nenhum se poderia considerar
este “Pós-” como um “Ante-”.
17
Também constatamos que desta via pós-moderna Marcuse já antecipa
algo, ao internacionalizar as relações de dominação, por inclusão
do terceiro mundo na definição do funcionamento capitalítico. Ele
opera assim a transposição do próprio “saber” como mediação
do político, ao novo contexto do capitalismo “tecnológico”,
pelo que posiciona-se também posteriormente a Foucault e à fantasia
“maquínica” pós-estruturalista. Quanto à aporia
geoegológico-modernista da crítica marcusiana, que podemos
localizar como a limitação de sua crítica quanto à problemática
do Outro, se enuncia a meu ver em dois planos, que articulam o
próprio discurso crítico.
18
Um plano específico é o da sociologia do trabalho, onde vemos porém
certa confusão entre dois sentidos do fenômeno. O trabalho é ao
mesmo tempo considerado como performance ou o que se produz, e como
regime ou lei do trabalho na acepção de produtividade ou política
de classe/ imperialismo. Em seguida, podemos especular sobre o que
motiva a extrapolação marcusiana, ulterior à fantasia, enquanto
projeção de mudanças na tessitura do Ser. Ao que parece, ele
equaciona as transformações históricas desde os registros de Freud
sobre o presente da civilização, e então procede por um raciocínio
de contiguidade a elas. Se as coisas não se mostram restritas ao
prognóstico freudiano, então podem ser mudadas, não apenas são
por si mutáveis. Porém torna-se problemático que a crítica não
incide sobre Freud sem salvá-lo recorrentemente, na medida que
também considera que nenhuma mudança rompeu com o contexto de que o
prognóstico é integrante, toda mudança apenas corrobora o
prognóstico. O que deveria ter sido considerado, porém sem ter
sido, é que o contexto psicanalítico é científico – apesar das
reservas a propósito (1), decorre da escuta clínica e da observação
de bebês como modalidade expositiva que comporta assim o teste dos
fatos quanto aos princípios. E ele teve, enquanto científico ou
assim pretendendo-se, que cingir-se às capacidades efetivas, assim
como àquilo que mal ou bem, considerou os fatos antropológicos
relatados na respectiva disciplina, como informação das origens e
dos fatos sociológicos relativamente ao trabalho. Uma vez que
Marcuse franqueou precisamente essa restrição, em todos os
desdobramentos considerados, seria coerente que ele estivesse
almejando a renovação dos dados, realmente necessária àquela
altura. Mas o que se mostra, novamente, é que há uma seleção
entre eles de modo a preservar como a base e alicerce teórico um só
dentre todos, aquele em que Freud ainda puder prounciar-se, a saber,
a antropologia das origens.
19
Aqui encontramos a contradição inerente ao criticado que a crítica
não quis desfazer. Examinando essa interpretação da leitura
freudiana das origens, vemos que ela condiciona a concepção
marcusiana do trabalho, de um modo porém que não explica por si a
sua extrapolação, da possível erotização deste, a qual se
estabele e como deriva autõnoma do percurso textual.
20
O vínculo estabelecido por Marcuse entre a sociologia do trabalho e
a teoria freudiana das origens da civilização, expressa uma grande
ambiguidade na estimativa dessa origem, na medida em que não apenas
define um modo de ser como é, mas paenas delimita o inaceitável a
partir de um horizonte idealizado, que desse modo prepara um discurso
sobre como dever ser. Entretanto ambos, o rejeitado e o desejado, são
ainda a mesma origem.
21
A antropologia freudiana de Totem e Tabu não pode ser já validde
sob qualquer hipótese, mas assim mesmo está afirmada a título de
´simbolo. Como se transpõe o hiato do válido e do fantasioso na
ordem mesma do que desvendaria o funcionamento mental de onde se
espera a validez, o empreendimento se torna frustrante na perspectiva
da ciência. O aspecto panfletário na projeção do trabalho como
deve ser, ou erotização, mantem-se como linha independente na
evolução expositiva (2).
22
Quanto ao primeiro nível, torna-se atribuível como verdadeiro
sintoma, porém não apenas própria ao texto marcusiano, e sim
estruturante da neurose ocidentalista como desejo de domínio do
saber sobre a condição suposta totalizante do não-moderno
ocidental. O “arcaico”, não obstante o quão presente, é tanto
o despotismo da origem como o instinto livre na origem, o que não
poderia ocorrer é não haver um critério de diferenciação
homogêneo a definir um modo de ser suposto anterior, como
irredutível, à produção do pensamento científico, economia
objetiva, regime constitucional de legalidade (3).
23
Se a crítica da economia política é o que impulsiona o argumento
marcusiano contra o que designou o princípio do desempenho, o nível
independente do científico em que se move o puramente político é
ainda um dever ser da totalidade, o “exibicionismo” schileriano.
A pluralidade de regimes de Estado, bem inversamente à ausência de
lei, não se coloca como parâmetro adequado da análise. O que se
propõe na ausência de reflexão sobre a legalidade, aí onde se
estabelece o espaço real do jogo – como intersubjetividade, em que
a alteridade pode ser atribuída em sua independência – é porém
uma supraordenação do trabalho por objetivos ideais: “luta
coordenada contra qualquer restrição ao livre jogo das faculdades
humanas”, assim contra a labuta, a doença, a morte, Não se
concebem os produtos das atividades do trabalho histórico, como
arqueologicamente se traduziriam na mistura dos fatores positivos e
negativos da existência. (p. 145) Tanto o enfrentamento desses
mesmos fatos indesejáveis, o que não se assemelha muito ao
facultado pelo domínio do prazer pré-genital até uma possível
evolução a um futuro em que eles teriam sido superados, como o que
tedstemunha da inventividade e inteligência motivadas na cultura,
assim relacionada aos mesmos fatos. Realmente se pode considerar que
a relação com eles visando superá-los difere da relação com eles
como unilateralmente determinantes de toda possibilidade de ser. Em
todo caso, não se concebe que a subsunção do trabalho ao regime de
dominação, mesmo que possa ser traduzida em termos da adesão ao
que se deve pelo contrário superar, devida à convergência dos
instintos destrutivos com a repressão primária, é um problema que
não deveria reduzir a definição mesma do trabalho em si.
24
Consideramos que estamos hoje desfazendo a rigidez do sintoma, o
fascínio da dominação que investe contra o desenvolvimento das
possibilidades de vida, travestindo-o de sujeição á ordem
capitalíica cuja realidde é apenas bem o contrário, o impedimento
de desenvolverem-se de modo independente, todos aqueles que não
serviriam para corroborar o a priori da reserva do Saber
ocidental como sujeito da História, agente da Modernidade.
Compreendemos que Marcuse vislumbrou o mesmo objetivo de libertação,
porém permaneceu sob o vulto do sintoma, tendo contudo realmente
franqueado os rumos de superação dos seus limites.
25
O que ressalta na leitura de Eros e Civilização é a interpretação
híbrida do pensamento freudiano. Ora o Eroa pode ser generalizado à
atitude vital e assim importar a uma sociologia do trabalho com
abrangência existencial, o que seria estar considerando a
psicanálise como a teoria dos anos vinte. Ora trata-se, para o mesmo
interesse sociológico existencial, de um empreendimento exorbitante,
aparentemente lógico, de deter aquilo que a psicanálise como teoria
anterior à ruptura dos anos vinte, designou a evolução
psicossocial que garante o controle da vida instintiva nquilo que
pode se tornar funcional ao comportamento subjetivo. O aparentemente
lógico é que se esse processo evolutivo está relacionado ao
considerado criticável sociologicamente, então o contrário, a
vida dos instintos suposta pré-civilizada, sria o antídoto ao
mal-estar da civilização. Como Freud considerava os instintos da
fase infantil polimorficamente perversos, como a unidade que cada
perversão neurótica separada é em si, então o empreendimento
marcusiano visou consequentemente liberar a polimórfica perversão –
que só é definida em Freud como, circularmente, o que se distingue
do genital, assim o beijo é tecnicamente perverso, ainda que em
nível “normal” de desvios relativos à penetração. Porém de
fato é absurdo, pois o objetivo de contrafazer a dominação que
subsiste na mentalidade do trabalho está visando liberar um algo=x
que só podemos pensar desde que a perversão não está
dominando a mente. Este “algo” sendo as pessoas efetivamente
existentes como sujeitos das ocupações, que tem valores, devires e
futuros criativos independentes.
26
Na fase infantil não há alteridade, como vimos devido ao modo da
conexão de instinto e objeto, Sujeito e Outro, não comporar ainda a
distinção epistêmica, e o sintomático é que onde a dominação
persiste como abstração da alteridade, Marcuse e muitos teóricos
do que designei a metodologia funcional desde Weber, Tönnies,
Heidegger e outros, fizeram o gesto de recusa dessa definição
óbvia. Porque para tanto, teriam que considerar o capitalismo como
gigantesco aparato, cheio de passionalidade e desrazão a desvirtuar
toda forma de legalidade, em vez de ser, pelo contrário, a “base
concreta” da civilização. O capitalismo estou considerando, pois,
em termos de imperialismo, como regressão ao império aristocrático
arcaico na história europeia relativamente à organização do
Estado de direitos civis contemporâneo. E quanto a este, repetindo,
é também constatável, sob variadas nmodalidades culturais, em
alguns referenciais não-“moderno”-ocidentais. Como se tratou
apenas o eurocentrismo do progresso, este foi elevado a mito da
ciência social. E criou-se um outro, o mito do pré-civilizado
conceitualmente dominável, abarcado num conceito único da definição
do caráter primitivo.
27
O hibridismo de Marcuse, entre os dois conceitos da psicanálise, tem
um sentido de erotizr ocupações que na verdade são intelectuais,
como a medicina e o planejamento contra a fome. Ao que parece,
Marcuse pensa a erotização em termos de objetivos, uma vez que
assim eles servem à vida. Porém a medicina só progride abarcando
um nível aquem da oposição do senso comum entre o inanimado e o
animado, uma vez que só pode estudar e compreender os corpos como
eles são. E o Eros continua sendo pensado sob a ótica do trabalho e
da utilidade destinável, quando de fato pelo termo “criatividade”,
em nível subjetivo seria complicado delimitar desse modo. Marx mesmo
considerou que um critério de salários compatível apenas com as
necessidades carece de base como tal, porque “necessidades” são
variáveis conforme tempo e lugar – que dirá quanto à estimativa
dos indivíduos que também podem variar conforme a situação. Assim
o critério da utilidade não é um “critério” de fato.
28
As capacidades que se desenvolvem podem ser independentes de
processos repressivos, e esta base parece ser convergente com o que
Marcuse considerou. Mas assim seria preciso romper com o determinismo
ontofilogenético freudiano. O que Marcuse considera inaceitável
nessa ruptura é a dessexualização da teoria, que não
privilegiaria como único fator causal a libido, porém a teoria da
libido é ela mesma controversa e contraditória, devido á sua
história como clínica, de Freud até agora. É de fato duvidoso que
a limitação política ao pré-genital – como qualquer
interferência imperativa supra-individual – não seja por si só
um fator que conduza à dessesualização real na prática (ver nota
3).
29
Creio que a teoria da libido é ambígua quanto ao fator que parece
privilegiar. O sexo em Freud é apenas um mecanismo instintual
relaciondo às vicissitues da infância na sua destinação à
socialização. O mais necessário na atualidade, a meu ver, é a
crítica à dominação como forma de independência e realidade
subjetivas. Mas um planejamento da sexualidade visando o limite
expresso “pré-genital” contraria essa forma.
30
É algo óbvio que essa proposição nada tem de novo, porém até
agora ela só tem sido feita na interioridade da oposição freudiana
em particular, e da modernidade em geral, da inteligência como
processo elaborado, desenvolvido ontofilogeneticamente a partir de um
estado de ser univocamente definido como pré-elaborado, instintivo e
natural-comunitário, ao invés de socializado, para utilizarmos aqui
a oposição de gemeinschaft e geselschaft vigorando desde Weber e
Tönnies em diante. Eu concordo que se a oposição fosse
inteiramente válida, a regressão seria o pior, mas o culturalismo
supunha que ela deveria ser o requisito de uma nova socialização, e
só desde Lacan a crítica à regressão está assumida com a
consequência porém de um novo recalque ocidentalista sobre as
culturas não-ocidentais ou assim designadas subdesenvolvidas por um
critério que é apenas o imperialismo tecnológico (“ocidental”).
Muitos questionamentos tem sido feitos a propósito da
inteligibilidade da oposição, ainda que sem tocar na unidade da
cultura ocidental, pelo contrário nela acreditando piamente, como em
Derrida, o mestre desconstrutor das dicotomias que tanto pugnou
contra a suposição foucaultiana de verdadeira ruptura da época
clássica, o período escravista-colonial, relativametne ao
Renascimento porque a seu ver tudo que é conceitual é europeu, e
tudo que é europeu é platônico. Aqui não seria o caso de seguir
os argumentos da heterogeneidade cultura que tenho desenvolvido
alhures, mas sim de questionar pelo lado oposto da mesma moeda.
31
O que está sendo conceituado como não moderno, instintivo,
perversão? Como se constitui o conceito freudiano psicanalítico de
- especificamente - “perversão”, e o que ele classifica? Sob o
rótulo de “perversão” vemos pulular muitas atribuições, por
ceto ângulo. Mas por outro, apenas uma generalidade que abstrai o
modo mesmo da diferenciaçaõ que funda o cocneito como o
polimorfismo, não reunível, ao contrário da unidade da razão,
para reduzi-lo a apenas essa única coisa, o contrário da razão, o
bruto anterior ao elaborado. Não se trata de concordar que a
“História da Loucura” de Foucault tencionava provar que o
moderno conceito de psicopatologia apenas preservou o “desarrazoado”
generalizado a que se limitava a chancela da exclusão da era
classicista. Foucault nunca pensou, aliás, essa era como o que ela
era, o período colonial-escravista. Também não considero que o
Renascimento à Erasmo é o mesmo que a Razão à Descartes. (4) Mas
sim trata-se aqui de mostrar que sob o rótulo da perversão, como da
definição da doença do adulto como fixação infantil, um conceito
unívoco resta como razão e raciuonal. Mas também, como Marcuse
porém com meios teóricos diversos que nominalmente criticavam os
seus, Foucault não o questionava, apenas pretendeu mudar o estatuto
do valor. O dilema, então: preconceito etnocêntrico progressista à
Lacan, ou censura da Saúde em Foucault e valorização do assim
designado “atraso ”em Marcuse, etc.
32
Mas não caucionamos tal dilema. O rótulo freudiano da perversão
parece-se com as leis não democráticas, de cunho
etnicista-religioso. Misturam sob o signo da exclusão crimes de
fato, como atentado aos direitos alheios, e o que só é transgressão
para códigos da própria superstição do valor, atentado à
dominação menos legitimável. Há muito que sabemos que essa
partiçãoé que está sob suspeita na crítica da ideologia, porém
como vimos, apenas para manter a oposição do autêntico e do
derivado que porém não altera o dogma da vontade de poder
autoritário. A democracia ou legalidade continua impensável, como
em Platão. Aqui se trata, pois, de questionar o estatuto da
perversão. Vemos que Marcuse o mantem indefinido, ou num horizonte
de preconcepção geral psicanalítica. Ele valora, mas gosaríamos
de saber exatamente o que e em função de que critério.
33
Freud apresentou sua teoria dos instintos, de modo que ela seria o
fundamento do conceito de perversão como destinação de um outro
tipo que aquela que seria regular, conforme uma ortodoxia da
penetração. A peculiaridade da libido como essência da ciência
psicanalítica vimos ressaltada por Marcuse contra a psicologia
humanista como se designa a tendência, porém a distinção desta
relativamente a Freud não se limita à impressão que parece ser a
de Marcuse, de ser in toto abstração dos instintos materiais,
sexuais.
34
Maslow criou o conceito de necessidades básicas e estruturou a
personalidade em termos de meios de sua satisfação. Considerou
níveis estruturais conforme o grau de elaboração da personalidade,
a partir da satisfação das necessidades primitivas e mais urgentes
na pespectiva da autoconservação. Mantem-se assim acima da crítica
do critério pela relativização das necessidades para estimativa
econômica, já que a sua classificação joga tanto com a variedade
delas conforme níveis independentes, como com um critério
psicológico subjetivo. Assim porém as necessidades de estima e
auto-estima não são confloitantes, basicamente, ao contrário da
concepção freudiana original. Na organização dos grupos de
necessidades básicas em ordem crescente, Maslow está isento de
caracterização de insintos agressivos. Os grupos ou níveis que
escalonam a pirâmide, desde a base, em faixas específicas, são
cinco: necessidades definíveis como fisiológicas, de segurança,
amor, consideração e auto-realização. A insatisfação em
qualquer nível travaria o acesso aos demais níveis acima
localizados. A mudança social ocorre pela ação de classes que já
se realizaram nos níveis inferiores e agora querem mais,
inversamente a ser coerente supor que grupos ainda carentes em nível
básico poderiam projetar mudanças significativas no âmbito
cultural. Pode-se considerar que essa é uma teoria “burguesa”,
pois elide a explicação, na sua enformação própria, da
desigualdade de classe. Mas ela é sociologicamente proveitosa se
lembrarmos que apenas considera que se persistirem grupos
depauperados, não é que nada farão para alterar a situação, e
sim que limitarão o nível dos objetivos lícitos na mudança
social.
35
Hoje essa lição é mais útil do que poderia parecer inicialmente,
pois estamos em plena decorrência de um fascismo difuso que se
caracteriza pela utilização dos depauperados por elites
capitalistas de mentalidade aristocrática que, insuflando
demagogicamente a revolta justa do pobre contra o status quo,
pressiona, pela manipulação de cargos e atribuições
neuroticamente redimensionados por campanhas de mídia, para a
transformar em fantasias de poder ilimitado sobre a vida alheia.
Assim, tendo que haver bodes expiatórios que sirvam à ambição do
poder da massa manipulada, são estes a porção esclarecida da
população que vinha até agora esforçando-se por produzir mudanças
sociais realmente adequadas no combate à aristocracia – que é a
porção responsável pela desigualdade estrutural, cujo objetivo é
apenas conservá-la. Claro está que a demagogia populista de que a
aristocracia fascista se utiliza pelo novo alcance de intervenção
na vida privada concretizado por aparelhos digitais orquestrados à
dominação info-midiática, não altera nada na desigualdade do
acesso à cultura letrada e conscientização dos direitos civis.
Pelo contrário, a ideologia pervasiva, como vimos, é o que
poderíamos designar o elogio da ignorância jactanciosa. Não
significa pois o acesso irrestrito do subalterno aos esquemas de
poder info-midiáticos, mas a seleção do pior do ponto de vista
político, com alijamento daqueles que não são estereotipáveis por
fatores de classe. O que implica anular a característica da
sociedade democrática, a saber, a mobilidade social, a possibilidade
de mudar de classe conforme o mérito, o que a longo prazo implicaria
o desfazimento ou relativização real das fronteiras de classe, como
a social-democracia prevê. Pelo contrário, a aristocracia fascista
da “Glogalização” anula o que já foi obtido pela população
esclarecida antes do neoliberalismo econômico, como democratização
do ensino e direitos trabalhistas, planos de carreira, etc. Todo o
avassalamento info-midiático da privacidade por gangs fascistas
atuando na sociedade por via de ocupação de cargos cotidianos,
concertadamente à dominação info-midiática publicitária é
crime, procedimento anti-constitucional por si só, porém a atuação
é ostentosamente criminosa no sentido de fazer-se como prerrogativa
de poder de vida ou de morte sobre os que mantem no cativeiro.
36
Na estimativa de Maslow, portanto, se houve ação da população
esclarecida contra a estrutura do poder aristocrático que
caracterizou a sociedade “tradicional”, onde a independência da
lei relativamente ao costume era lesada pela restrição da cultura à
ideologia do fascínio heroicizante-autoritário, essa ação
refletiu a repleção do nível básico de necessidades. (5) Se
estamos podendo simpatizar com causas mais avançadas do que
satisfação fisiológica, uma vez que esse estágio já está
garantido, só haverá desobstrução de novos obstáculos sociais se
não for provado haver ação constestatória por necessidades
básicas urgentes. Na verdade haveria assim, no récit do
progresso industrial, uma contradição notável, pois como a
histórica elevação ao nível da Realização iria ser coerente com
a crueldade, a exigência do sacrifício de classe? Enquanto há
obstáculos à Realização em nível histórico-social, portanto,
comprova-se que a burguesia “moderna” foi uma conquista injusta,
a estrutura mesma da persistência da desigualdade, disfarçando mas
não alterando substancialmente a aristocracia “tradicional”. O
que permanece sumamenter importante na teoria de Maslow da
personalidade como modo de realização da “pirâmide das
necessidades” escalonada em níveis, é pois que nela não há
separação intrínseca ao conceito de emancipação, do que seria a
base e a superestrutura do marxismo ortodoxo. A “realização”
pessoal como criatividade livre é o verdadeiro objetivo do ser
humano, assim como também a estima e a auto-estima.
37
Murray apresentou uma lista maior de necessidades, do que as listadas
em cada faixa da pirâmide de Maslow, agregando energias
motivacionais de agressividade e passividade. Os motivos que
impulsionam a ação podem ser conflitantes, havendo tanto o de ser
humilhado – o que estaria de acordo com Freud na concepção de que
submeter-se à autoridade reproduz a situação do filho com seu pai
– como o de evitar humilhações e sobrepujar outros. A
personalidade realizada de Maslow apresenta quinze itens de
avaliação. Inclui tendências democráticas, altruistas,
anti-agressivas, mas com ênfase em criatividade e anti-conformismo.
É interessante o tópico que avalia a propensão a maior
concentração em problemas do que sobre si mesmo. Creio que
contrasta bastante com o modo como Freud reduziu problemas
sócio-culturais e políticos como especialmente a guerra, à
estrutura da personalidade subjetiva.
38
Tornando à contradição entre almejar-se objetivos culturais,
superiores ao nível básico de satisfação instintiva, e
indiferença ou repressão a levantes por satisfação de
necessidades básicas que subsistam estruturalmente, numa abrangência
irredutível à mera idiossincrasia ou circunstância, vemos que a
contradição histórico-social que a teoria de Maslow permite
definir se relativiza na avaliação por critérios. A preocupação
com problemas e identificação com a humanidade (ao invés de com
indivíduos determinados, líderes carismáticos ou poderosos) são
traços da personaliddae auto-realizada. Seria esperável que se a
realização se tornasse mais comum haveria iniciaiva proeminente de
eliminação das carências de classe, o que corresponde ao ímpeto
de resolução dos problemas.
39
Maslow utilizou como referência na elaboração de sua teoria,
critérios que hauriu em seus estudos de biografias de gênios. Eles
seriam pessoas que sempre conseguem o que querem. A estrutura das
necessidades como critério da personalidade é um princípio da
psicologia de Maslow semelhante à psicanálise freudiana, porém
assim ao contrário de Freud, cujos estudos foram de casos neuróticos
ou pessoas frustradas por motivos não devidos a circunstâncias
exteriores. Por sua adoção do modelo do gênio a estimativa da
auto-realização em Maslow é mais como ideia reguladora do que
teste de normalidade psíquica. Localiza o que seria a tendência
autêntica em nós. Expressa-se por inferência que a sociedade só
poderá contar com impulsos verdadeiramente construtivos se for capaz
de eliminar a crueldade, assim como os focos de injustiça social que
geram condições de insatisfação crônica em níveis fundamentais
de necessidades. O conflito entre instintos e civilização não
existe, pelo contrário, é a civilização maior que soluciona a
carência em nível de instintos.